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FACE DESNUDA

Ao pé da calçada, a face de grandes olhos espreita os dias em direção à modernidade. A rua alargou, foi asfaltada, padronizada, ganhou sinaleiros, carros e ônibus. A vizinhança espichou, prédios novos, janelas escuras e portarias automáticas. Os transeuntes esqueceram o caminho, o nome dos vizinhos, o leiteiro, o carteiro... Quase não há sombras infantis perambulando pelas calçadas, bodoques, passarinhos, travessuras, mexericos, risadas... Perdeu-se o vão para o olhar descansado da velhice, a entrada segura para a intimidade dos jovens enamorados.

A fachada da casa permanece intacta, até suas rachaduras parecem pinceladas, enriquecendo o conteúdo da lembrança. Um branco amadurecido reflete o dia claro com suaves contornos azuis. Duas grandes janelas são aberturas para um quintal verde que não pôde ser transportado junto à mudança. Sem as presenças, as ruínas são retratos do tempo subjugado, os sinais da construção possibilitam o mágico resgate do passado entesourado na antiga moradia.

Os alicerces estão delimitados no centro do terreno. Os poucos tijolos enfileirados remontam um corpo rubro, quase vivo, estendido como uma sombra vívida da história de uma casa. A sala, os quartos, um resto de encanamento na extremidade, o assento de uma cadeira de palha, um pano de prato bordado com ponto de cruz... Tudo parece tão superficial e pequeno e, ao mesmo tempo, tão profundo e misterioso...

Lembro-me da casa engraçada do Vinicius de Morais, “não tinha teto, não tinha nada”. Como num desenho infantil, projeto a família esboçada, o menino com a bola no pé, a menina agarrada com a boneca, a mulher mexendo na panela com uma enorme colher de pau, o homem limpando o pé na soleira da porta na lateral da casa, o ancião sentado na cadeira de balanço sob a ampla janela aproveitando os entardecidos raios de sol.

Os personagens se projetam em novos papéis, crescem, nascem, morrem, multiplicam-se... Uma infinidade de imagens, indícios e segredos erguem paredes de pés-direitos muito altos que guardam os sonhos que, hoje, debruçam nas amplas janelas e chamam minha nostálgica atenção com faces juvenis e travessas.

O calor de algumas vivências desenha no quintal as projetadas sombras do tempo. Tempera o dia com o sabor dos almoços de domingo, das sopas de inverno, do gosto amargo de alguns remédios caseiros. E repassa ao ar dos motores aquecidos o cheiro morno e sem pressa do café recém-coado das manhãs de neblina...

A arquitetura antiga denuncia o tempo, as tantas gerações que brincaram de ser nos assoalhos que acobertaram os solos. Passo com a saudade de folhear um livro antigo e me abrigar na leitura de uma saga, de um conto... Encerro minha percepção na fachada de grandes janelas até despertar com a casa incorporada em minha lembrança como uma página escrita de um diário do tempo erguido sobre os alicerces universais das circunstâncias.

A frontaria bem caiada dá continuidade ao alinhamento da rua num ir e vir de recordações e esquecimentos. Desafia as modernas construções com a presença constante dos vestígios da história alinhavados na face desnuda da memória.

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 31/05/2006
Reeditado em 31/05/2006
Código do texto: T166582
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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