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Sobre os costumes

Sobre os costumes

Códigos, regras, condutas, tradições, educação, polidez estão entre as muitas formas pelas quais somos tolidos todos os dias em nosso pensar, comportamento e modo de agir. Somos que levados e coagidos a nos comportar de tais maneiras em determinados meios e somos proibidos de nos comportar em outros. Muitos dirão que isso não é de jeito algum uma forma coercitiva. Outros atacarão dizendo que todas as regras são necessárias para uma organização social complexa. Ainda teremos aqueles que definiriam a vida como processos sucessivos de frustração, deixando ao ser humano apenas uma fatia reduzida de escolhas.

Naturalmente que todas esses questões devem ser levadas em consideração. Mas partindo para um outro princípio podemos dizer que todas as coerções necessárias para a nossa boa convivência são as que naturalmente vêm a ser, digamos, úteis. As demais só ficam como resquício de uma falta de adaptação e reflexão sobre nossos costumes. E é nesse excesso onde recai toda a nossa inoperância e falta de sensibilidade de nossa sociedade deixando correr solto todo tipo de ação inútil que sem porque existir só o continua aí por falta nossa.

Começando do essencial tenho que apontar a razão pela qual erigimos tantas regras de conduta em nossas sociedades. Crendo que o fato da boa convivência ser a principal razão nos dá um bom ponto de partida. Nessa aceitação já cremos de cara que o bem é uma instancia maior a ser buscada. Talvez porque ninguém goste de sofrer. Olhe bem esse ponto e verás que é só porque não gostamos de sofrer que escolhemos ter essas regras e nunca para sermos felizes. As regras não trazem benefício algum além da garantia da proteção à vida e de uma liberdade para ser buscar alguma coisa.

Construímos um mundo ao nosso redor de falsas condutas para que possamos viver com um mínimo de condições, ou pelo menos o mais perto nas igualdades delas. Enfim, as leis nos servem de parâmetros para nos dizer o que podemos ou não podemos fazer, ou nos dizer que podemos fazer de tudo, só não podemos ser descobertos se fizermos coisas que sejam proibidas. Mas essas leis, sociais, não bastam, voltarei a essa proposição mais adiante, aqui gostaria de ressaltar mais uma coisa. Nossas leis tem se especializado cada vez mais e se pegares todos os compêndios de nossas leis, ao menos aqui no Brasil, terás material de estudo para a eternidade, contando com as possíveis interpretações desse monte infindável de regras.

Conseguimos nos afundar em meio a uma legislação absurda, com mais leis que podemos saber, obedecer e cobrar. Nos alienamos nas nossas leis e deixamos o barco correr solto. Tudo parece estar bem, mas quando necessitamos procuramos um advogado. Principalmente aquele advogado fera no que faz que poderá encontrar as brechas mais escabrosas e nos salvar. Mal caratismo? Em meio a selva não há lei senão aquela do salve-se quem puder. E quem discordar que vivemos na tão famosa selva de pedras?

Guardando o devaneio voltemos aos nossos costumes. Os nossos costumes são aquelas regras que não são escritas, mas passadas de geração em geração e que contém o cerne de uma cultura. Costumamos beber café depois do almoço. Costumamos praticar esportes pela saúde. Costumamos isso, aquilo e aquilo outro. Certamente, assim como nas leis, vamos nos perdendo em meio a passagem dos costumes. Nunca paramos para pensar, ou se paramos não adianta muito, que nossos costumes estão defasados, que não nos servem mais. Mesmo pensando neles fica-nos difícil de mudar-nos. Pois fomos criados de tal jeito e se desconstruir é complicado e penoso. Como que parar de fumar, só se para se se quer realmente. Pouquíssimos são aqueles hoje que pegam seus tempos livres e se desconstróem.

Podemos achar que estamos em uma época de crise de costumes. Atualmente tantas de nossas ações são determinadas por duvidosas pesquisas científicas que garantem em um momento um dado comportamento e desmentindo-se a si mesma um ano depois. Duvidosas, pois como sabemos a ciência não tem pudor e se constata-se algo errado logo já se diz e partem os estudiosos para uma solução do problema. Hoje é certo que a ingestão de tal substância é benéfica para a saúde, amanhã já se constata que não. Depois podendo até chegar-se a uma conclusão que é maléfica. E qual o problema disso, perguntaria o mais apressadinho. O problema está justamente em nosso costume atual de seguir, ou procurar seguir, todas as pesquisas científicas como verdades absolutas. E quem nos dirá que isso já não virou um costume?

Costuma-se carregar um buquê ao entrar em uma Igreja. Costume e tradição. Começou em épocas de pouca higiene. A Idade Média era cheia de macetes para disfarçar a decadência do corpo. O buquê? Mais uma malandragem, usava-o para disfarçar o cheiro da noiva. As flores davam um perfumado aroma a portadora. Atualmente em tempos de extrema higiene, se escovam os dentes em média três vezes ao dia, com complementos de enxágüe bucal. Tomamos em média dois banhos diários. Temos cremes, shampoos, loções, hidratantes, etc. Nunca estivemos tão guarnecidos de utilitários contra a “sujeira”. E continuamos a utilizar o buquê. Porque? Porque somos demasiado estúpidos para não dar-nos ao simples parar e pensar. Alguns dirão que é bonito. Também acho lindo uma queima de fogos, e porque não o fazem diante da Igreja?

Mais acima comentei que as leis sociais não bastavam. Elas só fazem nos tolir, privar e proibir. Mesmo quando ela garante o direito ela nos oprime a termos o direito daquilo querendo ou não e ao mesmo tempo tendo que reconhecer no próximo o mesmo direito. As leis são uma forma de opressão ao mais forte. Fato. Mas elas não são necessárias. Pois o mundo é demais injusto, mesmo com elas, e para justificar a injustiça trazem-nos as leis divinas. Creio que nossas leis sociais foram baseadas nas leis divinas, mas elas são humanas, meras colocações e de respeito mútuo. Nossos costumes não são tão fortes assim que nos prendam por leis mundanas quando temos sede de vingança, quando sofremos em demasia, o sofrimento nos faz parar de pensar.

Aí entram as leis divinas, legislando contra a nossa eternidade, nossa alma. Quem pelo próprio bem poderia ir contra esse costume feito a ser creditado como verdadeiro? Quem se dá o pensamento de transgredir certas leis divinas? E não digo aqui daquelas que já são diariamente transgredidas, como enganar ao próximo, cobiçar sua mulher, ter inveja e demais baixezas da alma. Digo aqui daquela que é a mais preciosa e compartilhada lei que jamais existiu, uma, também, das mais transgredidas, a do direito a vida.

Nosso costume nos diz que a vida é o máximo direito que temos. Discordo dela também, a vida não é um direito e sim um fato. Nascemos e pronto, ninguém atribuiu a ninguém o direito a vida, ela existe como é e todos nós a temos. Não defendo a descontrução da divindade da vida para justificar assassinatos e genocídios, eles são hediondos de qualquer jeito, mas sim uma clarificação de um costume que se perpetua como que intocado e todos crêem nele como existente, e talvez seja, mas só pelo fato de ninguém perguntar o porque. Não se tem resposta. A vida é algo como qualquer outra coisa e nosso costume, ter a vida. Todos temos, todos perderemos.

A vida se constrói a nossa volta pelas abstinências de perguntas que nos outorgamos. Deixamos de perguntar para aceitar, mas quem determinou isso antes de nós não foi ninguém mais merecedor de nossas vidas que nós mesmos, e desperdiçar nossas vidas por costumes grotescos previamente erigidos por uma quantidade absurda de seres que não se questionavam é levar a vida guiada por um cego.

Nada mais esclarecedor que a verdade. O medo, a esperança o temor são aqueles oriundos da ignorância. Quanto mais perto da verdade estamos menos infelizes tendemos a ser. Mas nosso costume, o maior deles, além do pensamento que toda vida é sagrada, é não nos questionar. Quem levaria uma vida construindo todas as regras e valores que fosse usar? Agradecemos então a existência deles, previamente, mas não nos deixemos levar por todos, nem a maioria, pensemos e refaçamo-los. Assim não viveremos escravos de costumes idiotas, mas sim o faremos a servi-nos em busca de uma vida melhor.


leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 31/05/2006
Código do texto: T166596
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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