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No Pronto Socorro

O Sr. Azeredo, exímio serralheiro da cidade, sofreu um pequeno, porém doloroso acidente na sua oficina. Estava fazendo uma solda de um portão, sem a devida proteção dos olhos, quando uma fagulha atingiu o seu olho direito.
Imediatamente desligou o equipamento e, com tamanho incômodo não mais conseguiu sequer abrir o olho danificado. É sabido que a presença de um corpo estranho na superfície do globo ocular causa muita dor, mesmo depois de retirado.
Assim, o Sr. Azeredo procurou serviços médicos no "Pronto Socorro" local, aonde teve o seguinte atendimento:
- O senhor está de frescura. Pegue este colírio anestésico e, vá ao banheiro no final do corredor que tem um espelho e ... se vire ! Sentenciou o médico plantonista, completamente alheio ao sofrimento do paciente, que pacientemente procurou um recurso terapêutico.
Muito revoltado com o descaso, fez o que determinara o plantonista (se é que era realmente um médico). O alívio foi imediato, quando pingou duas gotas do remédio, porém, ao chegar em casa, constatou que tudo estava "quo ante", ou seja, não resolveu absolutamente nada.
Tempos depois, após desembolsar uma pequena fortuna em atendimentos particulares, conseguiu, finalmente, resolver o problema de seu olho, o que era obrigação do ESTADO.
Trabalhando normalmente, sofreu um outro acidente. Escorregou de uma escada e fraturou um dos pés. Uma dor terrível, pior do que a do olho.
Recorreu novamente ao "PRONTO SOCORRO" local, e, assim foi atendido:
- Sinto muito, meu senhor. Não posso fazer nada por você ! Disse o médico em tom de revolta. - Estou aqui simplesmente para encaminhar os pacientes aos hospitais que possuem recursos adequados.
O Sr. Azeredo, que já estava em dúvida quanto à sua identidade, achou-se um um verdadeiro Azarado. Todavia, foi mal e porcamente atendido no setor de ortopedia de um conhecido "Hospital" daquela região, sendo que, não foi feito pelo menos um RX e, teve o seu pé enfaixado, sendo orientado para ir para casa, e ficar em repouso.
Conclusão: conseguiu uma gangrena e teve o pé amputado, ficando deste forma, aleijado. Não se conformando, quis dar fim à própria vida, sendo descoberto pelos familiares que o comduziram ao "PRONTO SOCORRO", antes que fizesse o pior. É de se ressaltar que, quem se responsabilizou pela sua internação, foi um sobrinho que era paciente do Psiquiatra de plantão, ou seja, um doido internou outro maluco.
Não havendo vaga disponível no Hospício da Cidade, o pré-suicida, foi encaminhado à enfermaria dos homens e, por livre e expontânea pressão, deitou-se numa maca, onde recebeu diversos medicamentos, através do soro glicosado que foi administrado em uma de suas veias.
Horas se passaram, e entre um gemido e outro dos pacientes presentes na mesma enfermaria, o Sr. Azarado, ou melhor, Azeredo, sentiu uma enorme vontade de urinar, assim como fumar um cigarro. Ele próprio arrancou o soro do seu braço, acarretando uma perda de sangue considerável. Mas levantou-se, e, naquele passo de "ponto e vírgula" conseguiu chegar ao banheiro que já era familiar, desde a ocasião do olho.
Fez o seu xixi, e saiu daquele estabelecimento de saúde, para fumar tranquilamente o seu cigarro, lá fora, sem prejudicar os doentes que se encontravam no interior do nosocômio. Contudo, observara que ninguém havia percebido a sua "fuga", pois alta hora da madrugada, nem o pessoal da segurança estava acordado, tendo, portanto, passe livre para entrar e sair quantas vezes tivesse vontade. Pensou inclusive em desligar o oxigênio de quatro pacientes, porém, não teve coragem de fazê-lo, mesmo porque considerou que eles já estavam sofrendo em demasia.
Entrou várias vezes para beber água num bebedouro existente no corredor principal, e, as vezes em que saiu, fumou cigarros um após outro. Pensou em ir para casa porém, não havia ônibus àquela hora, no meio da madrugada. Resolveu, então, esperar o dia clarear, quando chegou um automóvel que parecia estar com muita pressa e, do seu interior saiu além do motorista, um rapaz carregando no colo uma jovem que aparentemente sofrera um desmaio. Como o motorista era seu cliente e morava próximo de sua residência, aproximou-se dele e indagou:
- O que aconteceu com a moça, Francisco ?
- Ela bebeu vinho demais e apagou... só isso.
- Vai precisar ficar internada ? Arriscou novamente.
- Sim, está quase em coma e terei que ir em casa buscar roupas para ela.
O Sr. Azeredo aproveitou a oportunidade para pegar uma carona até sua casa. Já no meio do caminho, Francisco fez a seguinte pergunta:
- E o senhor ? Tem alguém da sua família internado lá ?
- Não, ninguém.
- E o que estava fazendo lá, a esta hora ?
- Eu quis me matar, mas já passou a vontade.
- O que ? Vou retornar imediatamente ! Exclamou Francisco assustado.
- Não, por favor, me leve para casa. Eu não aguento mais aquilo lá.
- Mas o médico te liberou ?
- Não. Sai e entrei por diverssas vezes sem ser visto. Aquilo é uma bagunça. Imagine você, um suicida em potencial sair de lá sem autorização médica.
Francisco ficou pensativo, enquanto dirigia, provavelmente preocupado com o tratamento que seria dado àquela jovem, sua afilhada.
Já em casa, com o dia clareando, o Sr. Azeredo que vivia sozinho, ficou imaginando uma forma de se vingar de tudo o que sofrera naquele "PRONTO SOCORRO" aonde reinava o mais absurdo descaso.
Repentinamente pegou o telefone e ligou para lá.
- Pronto socorro, bom dia. Atendeu a telefonista bocejando.
- Bom dia, moça. Eu preciso de uma informação.
- Pois não, o que o senhor deseja ? Prontificou-se com outro bocejo.
- Eu gostaria de saber sobre o estado de saúde do Azeredo, que deu entrada aí ontem a noite, com idéias suicidas.
- Só um minuto. Bocejou novamente a telefonista.
Ficou "pendurado" no telefone por quase dez minutos, quando veio a resposta:
- O Sr. Azeredo estava em observação na ala da psiquiatria, mas já foi embora.
- Mas como foi embora ? Para onde ele foi ? Já telefonei para a casa dele e lá não se encontra !
- Não sei informar, senhor. Afinal quem está querendo saber ? Indagou a telefonista já um tanto nervosa.
- Aqui quem está falando é o pai dele ! Exijo uma explicação, pois como é possível um paciente com distúrbios mentais sair de um Pronto Socorro e não se sabe para onde ?
- Deve ter sido removido para o Hospício. Arriscou a moça.
- Deve ? Você não tem certeza ? Um paciente dá entrada aí e desaparece... ?
- Fique calmo, senhor ! Vamos tentar localizar o seu filho.
- Tentar ? E você quer que eu fique calmo ? Dentro de alguns minutos
estarei chegando aí com a Polícia ! Explodiu o Sr. Azeredo, consciente que o "trote" estava por terminar.
- Meu senhor, pelo amor de Deus, não faça isso ! Implorou a funcionária do nosocômio. --- Aguarde um instante que irei chamar o médico plantonista para lhe fornecer as informações que o senhor deseja.
- Faça isto e, diga à ele para chamar um bom advogado, que eu já estou a caminho.
Desligou o telefone e foi dormir após muitas gargalhadas, afinal, conseguiu deixar o "PRONTO SOCORRO" em "POLVOROSA", pois jamais iriam encontrá-lo. Deu-se por satisfeito e teve bons sonhos...


Por Alexandre Boechat.
Alexandre Boechat
Enviado por Alexandre Boechat em 31/05/2006
Reeditado em 20/09/2006
Código do texto: T166942
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alexandre Boechat
Petrópolis - Rio de Janeiro - Brasil, 58 anos
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Alexandre Boechat