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A VÍTIMA

A VÍTIMA

Trinta e oito anos de casamento. Mais da metade da vida jogada no lixo. Tantos anos bem vividos em companhia de Odete. E agora...? Encostado sozinho no balcão seboso e empoeirado daquele bar enquanto  tomava uma..., duas..., três..., cinco doses de pinga, ele estava absorto em seus pensamentos.
- Meu Deus, como eu fui estúpido...
Barzinho típico de cidade do interior. O mobiliário era sinistro como os contos de Poe: seis mesas toscas com cadeiras em palhinha, cujas treliças se desfaziam denunciando o peso de tantas bundas ao longo dos anos; o balcão era em madeira tão escura, que não se lembrava da última vez que lhe passaram óleo de peroba e portava vitrines que um dia foram transparentes, por onde, com muita dificuldade, viam-se algumas balas, chicletes, chocolates de quinta categoria, sabonetes, tubos de dentifrícios, alguns estojos com agulhas e alfinetes, um caixilho com diversos tubos de linha, umas poucas cartelas com colibris e colchetes, um amarrado com fecho ecleaires sortidos em cores e tamanhos, seis vidros de Biotônico Fontoura, uma caixa de Alka-Seltzer, outra caixa com alguns pacotes de Cibalena, uns seis vidrinhos com as minúsculas e cor-de-rosa Pílulas de Vida do Dr. Ross, uma caixa com Corega, 8 vidros pequenos de Gets it, e mais alguns produtos simples para atender a clientela no dia a dia.
A prateleira em “u”, feita com tábuas grosseiras, pintadas com tinta barata, emoldurava o fundo do cenário, onde se viam, ao lado esquerdo, empoeiradas garrafas de Cinzano, Martini, Conhaque de Alcatrão São João da Barra, Ron Merino, Ron Bacardi...; no painel frontal uma geladeira encardida com uma cinta de elástico - que um dia foi branca - para manter a porta fechada; em cima do refrigerador uma imagem do Santo Guerreiro, meio copo de um líquido amarelo que se presumia ser água e uma vela grudada em um  pires; ao  lado uma velha vitrola à pilha e uma montanha de discos em  completa desarrumação.
À volta desses modernos aparelhos, a seção de cachaças: Cocal, Pirassununga, Cantagalo, Pitu, 51, 61, Sete Quedas, Mineira, Januária, Velho Barreiro, Fogo Paulista, Chave de Ouro, Kariri com K, etc; para quebrar a morbidez, uma foto das páginas centrais da revista O Cruzeiro, de março de 1958, com o glorioso Botafogo, onde marcado com uma seta, está o Mané Garrincha; uma foto de Marta Rocha em corpo inteiro num indefectível maiô Catalina; um entalhe em madeira com os dizeres “FIADO SÓ AMANHÔ.
Do lado esquerdo, fechando o “u”, no que se presume a adega, os vinhos Surpresa, Dom Bosco, Sangue de Boi, Raposa, acompanhados de Frisante Michelon e champanhe Espuma de Prata.
Seu Chico, o dono do bar, vestido numa camisa suarenta, com um nojento e mastigado palito no lado esquerdo da boca, repassava as páginas sujas de um velho caderno onde registrava as contas de seus clientes, resmungando, vez por outra, palavras ininteligíveis: analisava as contas perdidas e as que, supunha, ainda pudessem ser transformadas em dinheiro.
No canto do salão um vira-lata pirento e malcheiroso alternava a coceira rápida de sua sarna com demoradas lambidas em seu pênis purulento.
A voz de Ângela Maria, tentando se destacar entre os chiados do velho long-play, interpretando “Balada Triste”, fazia fundo musical a esta cena melancólica.
E ele, ali, perdido em seus remorsos. Era um bom homem; já tinha sido prefeito daquele lugarejo. Deu muito azar. Envolveu-se com a mocinha que ajudava sua “primeira dama”. A coisa tomou proporções e ele foi relaxando nos cuidados. Um dia sua mulher voltou mais cedo da quermesse de São Sebastião e o flagrou com a boca na botija, digo, com a rola na buceta. Não houve argumentos nem desculpas: foi expulso de casa incontinenti. O escândalo foi grande na comunidade. Ato contínuo, desapareceram os amigos, as festas, os convites...
- Chimbica, desce mais duas! - Era Miguelão gritando para o negrinho suado, ajudante de ordens do bar.
Chimbica dirigiu-se à geladeira, levantou a cinta que prendia a porta, tirou duas garrafas de cerveja quase mornas, abriu-as e, trazendo uma em cada mão, aproximou-se da mesa com um branquíssimo sorriso naquela cara negra e safada, cantando sua marchinha para os clientes ali sentados:
- Mas a cachaça ainda mata um corno desses/Será que é esse?/Será que é esse?
Ninguém riu ou falou coisa alguma; continuaram jogando bozó. Os fregueses já estavam cansados de ouvir a música que Chimbica cantava para provocá-los ou fazê-los sorrir.
Toquinha entrou no bar, cumprimentou todos os presentes e se aproximou do nosso homem solitário. O dono do bar, quase automaticamente, preparou-lhe um rabo-de-galo com cachaça, Martini e São João da Barra que, depois de jogar um pouco pro santo, Toquinha sorveu pela metade e cuspiu no cantinho entre a parede e o balcão.
O homem solitário resmungou:
- Pois é, Toquinha, sou um homem acabado... Não sei o que fazer da vida... Perdi tudo: casa, companheira, amigos... Nem o Rin-tin-tim eu pude trazer...
Toquinha querendo consolar o amigo, falou calmamente:
- Compadre, dê um tempo e as coisas se arrumam... Quando a poeira sentar, a comadre há de compreender o que se passou e você retoma sua vida... Se pensarmos direitinho, vemos que nessa situação o compadre é a vítima...
O homem solitário olhou o interlocutor com ar de desprezo e desdém, virou seu copo em um só gole, cuspiu no chão, estalou a língua e replicou mansamente:
- É compadre... Eu sou uma vítima... Vítima da minha própria pica.

(Publicada no livro “20 CONTOS INVERSOS E DOIS DEDOS DE PROSA – Causos de nossa gente)

e-mail: zepinheiro1@ibest.com.br
Aroldo Pinheiro
Enviado por Aroldo Pinheiro em 01/06/2006
Código do texto: T167230
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Sobre o autor
Aroldo Pinheiro
Boa Vista - Roraima - Brasil, 62 anos
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