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Foto do telescópio Hubble mostra a morte de uma estrela e revela como deverá ser o fim do nosso Sol, daqui a 5 bilhões de anos (foto Nasa, AP/ZH) - Esta foto foi adicionada a esta crônica em 14.02.07


Nada é pra sempre


Tem uma letra de música da banda Legião Urbana onde o Renato Russo diz: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar prá pensar na verdade não há”. E não há mesmo.
Claro que o amanhã existe, o que o poeta quis dizer é que nada nos garante o futuro, pois a vida é frágil. Contudo, indo além do sentido da música, queria dizer o que significa o fato de nada neste mundo ser eterno, nem ele mesmo. Daqui a cinco bilhões de anos, quando o sol esfriar, o Sistema Solar não mais existirá, devido a diminuição da força gravitacional do “Astro Rei”, e a Terra será um corpo solto pelo espaço. Antes disso, a vida humana na Terra já terá se extinto, ou seja, devido a Lua estar se afastando da Terra, dizem os astrônomos, algo como uns três centímetros por ano, o que desregulará daqui a alguns milhões de anos os mares e a rotação do planeta ou pelo próprio resfriamento do Sol, antes da desintegração do Sistema Solar.
Em suma, se não conseguirmos um outro planeta em um outro sistema solar, talvez até em outra galáxia, não teremos futuro. Teremos que resolver nos próximos bilhões de anos essa questão, se quisermos ter futuro real. O problema é que tudo está grandiosamente distante no espaço, a anos luz de distância, inviável para a exploração tripulada do ser humano, embora a gente não possa conceber o avanço da ciência nesse período tão longo (e finito!) de tempo. Assim, tudo o que vemos hoje sobre esse chão tem data de validade. Nada é para sempre.
A gente não pensa nessas coisas, mas mesmo assim tudo o que conhecemos está fadado a desaparecer. Mesmo que fossemos imortais, em matéria, não viveríamos para sempre, teríamos um fim inevitável. Tudo bem, cinco bilhões de anos é muito tempo, até lá muita coisa vai acontecer. Mas, assim como viver 70, 100 anos é muito, parece que, no presente, enquanto vivemos, não acaba nunca, mas acaba, cinco bilhões de anos parece muito tempo, contudo esses anos vão passar e o mundo vai acabar. Nem o espaço sabemos o que é, se tem fim ou não, de onde surgiu, com certeza. Só sabemos, ao certo, que ele é enorme e está em expansão.
Todavia, vivemos como que esquecidos desse fato. E que escolha temos, né? Estamos aqui e pronto, não? Isso vai acontecer, independente do que achamos. Toda a nossa geração, daqui a no máximo 150 anos, terá desaparecido da terra. Somente os nossos descendentes estarão aqui. Mas daqui a cinco bilhões de anos, de qualquer maneira, nem o planeta mais existirá, nem nosso descendentes, nem a humanidade. Assim como cada ser humano morre, a própria humanidade perecerá. Adeus história, adeus tudo. Só o passar do tempo e a matéria espacial continuará existindo. Que coisa, né?
Comecei a pensar essas coisas ao ver as fotos dos outros planetas do sistema solar, desertos, quentes se próximos ao sol, frios se distantes. Uns gigantes gasosos e todos inóspitos para a nossa forma de vida. Só realmente a religião para nos dar uma explicação que nos sustente, de negar a nossa finitude, da qual temos autoconsciência. Aliás, somos o único animal que sabe que vai morrer. Um cachorro, por exemplo, vê um cachorro morto e não sabe que vai morrer também. Nós sabemos, mas a religião, em suas diversas formas em várias épocas da humanidade, nos explica que não morremos com o corpo físico, que temos uma vida após a morte, transcendente, imaterial. Não fosse essa explicação e a aceitação da mesma, enlouqueceríamos e viveríamos apenas para o nosso próprio gozo material nesse mundo. Acho inclusive que a própria descrença nas explicações religiosas e a fé no materialismo é que faz com que as pessoas busquem esse prazer desenfreado que vemos atualmente.
Devemos valorizar a vida, o outro, para termos uma boa passagem por aqui. Não temos futuro, a humanidade não tem futuro, o Sistema Solar não tem futuro, contudo temos o presente, temos o nosso tempo, que desejamos seja, conforme disse o poeta Vinícius de Moraes sobre o amor, “eterno enquanto dure”. É o segredo da vida, acho. Vivamos o nosso presente, sem, entretanto, “destruir” em nome de objetivos quaisquer, pois não vale a pena. A vida é preciosa. Pense que no futuro um descendente seu não verá o Sol nascer e brilhar, pois o Sol não mais existirá. Nem a Terra. Ele não saberá do ruído e do cheiro do mar, da chuva, das nuvens, das árvores, da... Olhe para o céu numa noite estrelada, quando estamos “de costas” para o Sol e a temperatura esfria, e pense a respeito disso. Onde estará esse seu descendente, se ele existir? “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.
(Há dois anos atrás, numa noite fria como hoje, estava no velório do filho de um amigo meu, um rapaz de 20 anos, vítima de um acidente de trabalho. Um vida ao fim e uma lua como hoje, num dia frio, o céu limpo. Hoje a noite está nublada aqui no Rio Grande. Mas naquela noite o dia estava limpo. Olhei a Lua. Ela indo embora, aos poucos. Pensei em todas as coisas acima, na nossa finitude, nas nossas dores. Nas bobagens e nas coisas pequenas em que a gente se apega.
Agora pouco acabou de dar um filme na TV, o Príncipe da Noite, sobre um rapaz que não podia se expor a luz, se não morreria em três dias, visto que sofria de uma rara doença de pele. Conhece uma garota. Resolve tirar a sua máscara protetora. Morre no final. Legal o filme. O sol foi o resgate da sua vida. Mas foi também a sua finitude. No futuro, será a nossa. E hoje é a nossa fonte de vida. A vida está na morte e a morte está na vida. É preciso amar como se não houvesse amanhã. Na verdade não há.)
02/06/2006 - 01h:01min - Charqueadas - RS
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 02/06/2006
Reeditado em 14/02/2007
Código do texto: T167723
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
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