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Olha ao redor. A ausência de sombras desfaz a feição apreensiva. Folheia os tantos papéis espalhados. Rabisca um poema, em negrito o verso. Rasga a folha. O pensamento sangra uma ferida antiga, uma lágrima, um leve tremor nas pálpebras... Lava o instante.
Perde o rumo do olhar, navega nos mares aflitos. Um leve arrepio, uma inquietação... Frio! As tantas distâncias... É transportada pelas invisíveis linhas para novos cenários. Perde-se. Gostaria de aportar simplesmente num sorriso receptivo, mas permanece navegante no intenso oceano... Mais um continente.
As palavras estão embaralhadas. Os gestos desordenados. Sente medo das emoções sombreadas na marcação. Descobrir-se além do horizonte... Abrir uma nova cortina... Observa, sem maquiagem, a ilusão amadurecida no espelho. Distancia-se.
Inaugura passos desconhecidos. Na rua, não se reconhece no reflexo dos outros. Sente se esconder no olhar perdido, na ausência de atenção, na presença dos riscos... É indiferente! É a conjugação própria das ações intimistas.
Relembra o poema que traduz o presente. Balbucia... Sempre se espelha nos sentimentos que gritam nos versos. Não se alcança. Tropeça no desencontro, na poesia que já não lhe pertence. As emoções distantes são sombras revoadas num céu cinzento. O desfecho, a rima, o passado... Alegorias que segregam a futura narrativa. Em prosa, compreende-se nos significados subliminares, nos breves períodos, nas reticências...
Nova marcação.
Manipula o reflexo com confissões contraditórias. Abandona-se num banco no calçadão. Um plano conhecido, uma nova perspectiva... É transparente aos olhos apressados. As tantas feições a confundem, olhares profundos, outros tão vagos... Os passos ecoam em seus pensamentos, marcam o compasso de cada percepção. A suave linha da ironia, a tristeza cicatrizada na testa, o pranto corrompido, a alegria liberta no riso contido, o desespero estampado no olhar, a apatia descolorida na face murcha...
As feições passam... Os sentimentos, as palavras, as indiferenças... Rompe o choro infantil na pequena sombra da calçada, a verdade exposta no hiato da linguagem. A dor e o prazer das primeiras impressões afligem a infância. As crianças também passam... A realidade, o silêncio aborrecido, a manifestação do desconforto, a falta de propósito...
As palavras se confundem nos lábios alheios. Murmúrios fragmentados na multidão. Perde o olhar no próximo sinaleiro, sente uma pausa no caminhar, uma trégua na respiração ofegante... A criança se distrai com o trânsito. Novos passos, imagens e sons propagados nos instantes reticentes. Sinal verde. As pessoas retomam os caminhos. Ela acompanha ainda transparente, espelhada nas feições que passam...
Uma nova cortina se abre. Mais uma marionete...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 14/05/2005
Código do texto: T16908
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
614 textos (789969 leituras)
2 áudios (1258 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 16:07)
Helena Sut

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