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Domingo em Paquetá


DOMINGO EM PAQUETÁ

Athayde é impar. Assim costumo classificar os amigos que a vida me proporcionou. O longevo tem a seu favor a jovial alegria do menino que ainda lhe sustenta a alma, posto que não envelhece. Apenas vive. Nega-se a ser refém de um passado que, se passou, limitou-se a cumprir o movimento natural das coisas. Aqui e agora é o único espaço-tempo destinado a ser vivido integralmente. Aquilo que ele foi, translada-o para hoje, como a sanha do passista, em dias de festa do Bloco, mormente quando uma cabrocha se lhe refresca a vista.
E lá vem ele ladeira abaixo. Passo de urubu malandro, achega-se. Cumprimenta a todos, inferniza o Vitório, implica com o Luiz. Mesa armada, é hora da purrinha. Então é a galhofa. Tem a inconfundível perícia de fazer aparecer e desaparecer as moedas quando todas as evidências parecem tramar contra ele. E ri como se ninguém lhe notasse o gesto. Mas como malandro demais se atrapalha, foi fora dessas quatro linhas que o nosso Orpheu asfaltino teve o seu dia de tragédia.
Domingo de sol. Destino: Paquetá! A bucólica ilha fluminense recebia os três mosqueteiros: Athayde, Osmani e Lídio. Mosqueteiros sem Dartagnan, pois deixaram o Vitório acorrentado à banca de jornais. Sete da manhã, latinhas em punho, quebravam o protocolo de não se beber antes das onze. Mentes mais soltas e risos mais frouxos, desbravavam, intrépidos, a ilha perdida na infância de cada um. Somadas as idades, eram quase dois séculos de saudades, fato que municiou-lhes de alguns brindes adicionais.
Na hora do almoço, chegando ao restaurante, uma mesa ocupada por jovens senhoras da terceira idade chamou a atenção do Athayde que, sem nada dizer, manobrou o grupo para uma mesa próxima. Cumprimentos discretos com a cabeça, sentaram-se. Nem bem a segunda rodada completara-se e lá estava ele, Athayde, no meio das balzaquianas em festa. Osmani e Lídio observavam sorridentes o jeito glamouroso e malemolente do amigo. No entanto, premido pela força diurética do álcool, nosso Rodolfo Valentino pediu licença para ir ao banheiro. Era a deixa. Educadamente, Osmani aproximou-se das moças e apresentou-se: enfermeiro. Sério, aponta-lhes para Lídio e segreda-lhes: médico. Faz-lhes ver que eles estavam ali passeando com o Athayde – alta patente da Armada Brasileira – cumprindo os trâmites da terapia ocupacional prescrita pela junta médica que, afinal, convencera-se que o confinamento do macróbio oficial poderia não ser o ideal para quem entrara numa fase mais dócil. Assegurou-lhes de que não corriam risco algum e que eles estavam prontos para intervir se necessário. Ficassem, pois, tranquilas. Osmani bateu em retirada.
Serelepe e aliviado, Athayde retorna exultante. Tarde demais. O compasso era de uma valsa destrambelhada: rostos circunspectos, risos sem graça e arrastar de cadeiras a cada investida do cavalheiro ensandecido. Assim, sem nada entender, voltou para o seu reduto onde ninguém mais conseguia se conter de tanto rir. Porém, ninguém lhe disse nada. Nem durante a viagem feita sob grande temporal.
No dia seguinte, no Costa, mesa posta, a revelação se cristaliza ao som de rotundas gargalhadas. Todos riram muito, menos o Athayde. Só depois, muito depois, ele riu prometendo a todos os presentes que araruta também tem seu dia de mingau.

                                                                                          Aldo Guerra
                                                                                         Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 04/06/2006
Código do texto: T169174
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra