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FONTE IMAGEMhttp://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/amores-brutos/amores-brutos09.jpg

CONFUSÃO POR AMOR

É festa na favela.
Vai ter excursão.
Na fila do ônibus, Teresa, Bruno, Edson, Leonardo, Vitória, Miguel, Sandra, Nice, Lucrecia, Vado, Boca Boa e tantos outros. Rola uma certa expectativa e os sorrisos estão frouxos.
As matulas todas prontas, tudo que é bom de se comer, tudo que se pode beber. As mulheres perfumadas desfilam por entre os homens para lançarem a isca de quem vai ficar com quem.
Sobre o tam tam e o pandeiro, mãos ágeis deslizam como num tobogã e o ritmo do som quebra as cadeiras das mulatas faceiras de corpos perfeitos e coloca na boca de quem toca, largos sorrisos de felicidade.
As crianças transitam nessa algazarra e como numa escola já aprendem e ensaiam os passos que um dia vão fazer delas o tão proclamado futuro dos jovens.
O motorista do ônibus está a postos. Pacientemente, aguarda o chefe da festa dar ordem para que cada um tome o seu lugar.
Boca Boa dá o sinal, a fila se agita ainda mais. São crianças passando por sobre as pernas dos adultos atropelando a ordem, são adultos cheios de alegria tentando colocar as sacolas em algum lugar de fácil acesso. É uma bagunça boa.
Cada um acomoda-se no seu assento, mas faltou lugar.
Tudo bem! Vai em pé mesmo – grita Vado – afinal, é só um pulo até Chácara.
O ônibus dá a partida.
O som se anima e as latinhas de cerveja passam de boca em boca. Não tem problema, ninguém aqui está preocupado com vírus ou bactérias. Felicidade é estar nesta festa. A cantoria rola solta e os olhares são cambiados como se fossem palavras.
Boca Boa resolve dar uma organizada e se coloca na frente do corredor para dar alguns avisos:
- Atenção pessoal! É muito bom estar aqui com vocês e quero que cada um aproveite o máximo possível. Para isso, cada um deve ter a consciência de que somos pobres, qualquer bagunça somos perseguidos pela policia. Peço cooperação de cada um para que mais vezes possamos ter a oportunidade e o direito de aproveitarmos a vida como gente.
Na janela, assento número quinze, Edson olha a paisagem e sonha. Sua viagem é bem além do que o ônibus pode levá-lo. Policial de profissão conquistou este cargo às duras penas e muito sacrifício. Não gosta de perder o controle de qualquer situação, mas não consegue dirigir o seu sonho e viaja além da paisagem da janela.
No assento número trinta e sete está Nice. Mulher batalhadora que aprendeu com a vida que o momento é o único bem que pode de fato possuir. Nice é alegre, gosta da vida, gosta dos homens, é atrevida e não se intimida quando o seu desejo é maior do que o seu controle. Nice é provocante pela própria natureza e se veste como tal para provocar e ser provocada.
Não tem medo de nada e é animada. Nice não morre de vontade de nada. Quando tem vontade de alguma coisa, faz.
Nice se levanta e chama a galera para o samba. A cantoria rola solta.
Mãos bobas passeiam pelos corpos que se misturam e esquentam, enquanto a cerveja vai dando o tom.
O olhar de Edson cruza como o de Nice. Ele tenta desviar, mas é mais forte do que ele e seus olhos hipnotizados procuram cada detalhe do corpo de Nice.
Nice, velha de guerra, aproveita-se da ocasião e se insinua. Joga um beijo para ele e sopra como se o vento levasse um recado.
Edson fica ruborizado e vira o rosto para outro lado. Não quer desejar. Seu corpo, no entanto, fica agitado e transformar em calma essa situação vai ser difícil.
A viagem continua, e como a turma fez um pacto com a alegria, vai cantando, vai tocando, vai falando bobagens.
Chácara é logo ali, e logo ali se chega rápido.
O ônibus pára.
Êta! Coisa boa – grita Sandra.
- É hoje que o bicho vai pegar, numa boa - responde Miguel.
Num alvoroço e atropelos esse povo alegre vai descendo um a um e arrumando um lugar para guardar seus pertences. Alguém sempre vai ter que tomar conta, porque se bobear o outro vai invadir a sua sacola e comer a sua comida. Mas tudo bem. É um dia diferente e isso não é importante.
O dia vai passando. Um dia de inverno com sol aquecendo o suficiente para não se morrer de frio. Convidativo para se perder o freio.
Um churrasquinho improvisado sobre pilhas de tijolos vai alimentando a turma e a bebida vai fazendo esquecer os problemas diários de sobrevivência.
Nice já bebeu todas as bebidas possíveis. Já não anda, está voando como MARY POPPINS nos filmes da Disney. E voa em direção a Edson. Ele mal pode senti-la por perto. Seu coração está disparado e seus olhos fixos na boca de Nice. Ela não perde tempo e sapeca-lhe um beijo na boca - beijo de língua-deixando na boca de Edson um gostinho de quero mais. Nice, entretanto, não está a fim de nada, apenas de curtir a vida e está atenta para não se envolver. Edson já administra isso como um compromisso e passa a vigiar Nice.
Nice transita pela galera e de vez enquanto sussurra uma provocação aos ouvidos de alguém. Seu sorriso maroto e seu carinho natural pegam no colo os mais carentes.
Edson fica nervoso. Sente ciúmes da conquista e pensa ser um compromisso para sempre. Vigia cada passo de Nice. Nice não suporta amarras. Qualquer possibilidade que a prenda por mais tempo está fora de seus planos. Mesmo assim, provoca o tempo todo, só para se sentir dona de alguma situação. Nice, entretanto, não conhece o que se passa na alma de Edson. Edson já teve o coração violentado por amores não correspondidos. Sofreu como um diabo e não mais admite sofrimento de amor para si.
Nice continua correndo e se envolvendo com que lhe dá bola.
Edson fica tão perdido que resolve se vestir da profissão de policial e dar um basta na situação, ao ouvir um amigo dizer a Nice:
- Mulher! Você arrumou uma inconha. Você vai pagar caro, você vai ver.
Edson só pode ouvir “conha”. Não perdeu tempo para mostrar a sua autoridade:
- Maconha? Quem é que tá usando maconha?
- Ninguém meu filho. Ninguém aqui usa isso. Tá maluco, camarada-respondeu Nice.
- Eu ouvi. Tenho certeza que ouvi algo parecido com “conha”. Tenho certeza que é maconha.
- Sai pra lá camarada. Ninguém ia ousar usar isso aqui. Tá todo mundo aproveitando o dia.
- Se não me disserem quem está usando eu vou chamar a viatura. Vocês vão ver com quantos paus se faz uma canoa.
Nice nervosa e p da vida então respondeu:
- Então chama. Se tu és homem chama. Aqui você não é policia. Aqui você é qualquer um. Se quer aparecer, chama.
Edson tinha sede de mandar todos os interessados em Nice para bem longe e para se cercar de direitos resolveu chamar a polícia. Estava muito zangado e não podia deixar passar em branco aquela ilusão colocada no seu coração. Não perdeu tempo, discou o 190 e se identificou como policial.
Não tardou a polícia chegar.
Ninguém sabe o que Edson falou com a polícia, mas seis viaturas foram deslocadas para o local. Os guardas desceram correndo e mandaram todos se deitarem no chão. Revistaram cada bolso, cada bolsa, cada pessoa e nada.
Nice não se fez de rogada:
- Aqui meus amigos, esse maluco do Edson ouviu coisas que não foram faladas e se querem saber nós o chamamos de “INCONHA” - ouviu bem? - Eu repito – “INCONHA”. Só porque dei-lhe um beijinho tá se achando dono do pedaço.
Os policiais se entreolharam e começaram a rir. Tinham certeza do engano e só para não dizer que foram lá à toa deram uma ordem:
- Vocês não me inventem bagunça porque podemos enquadrar todo mundo. Vamos ficar de olho em vocês e no mais, aproveitem.
Edson se sentiu humilhado. Havia se iludido, havia colocado para fora a sua eterna insegurança. Pobre coitado, sabia que seria objeto de todas as conversas e seus sentimentos estavam escancarados para qualquer um ver. Sentia-se completamente nu.
Nice também estava com raiva e Edson era a figura de sua ira.
Teresa então surgiu para amenizar a situação. Sentou-se ao lado de Edson e carinhosamente mostrou-lhe com que intensidade ele havia exposto o seu ciúme. Edson chorou. Jurou para si mesmo que iria se afastar por um tempo do grupo para ser esquecido. E assim o fez.
Nice resolveu não mais provocar o amigo. Perdoou-lhe o acesso de raiva, porque também se sentia um pouco culpada.
Agora, os dois e todos os outros aguardam ansiosos uma por uma nova excursão.






Rosa Berg
Enviado por Rosa Berg em 06/06/2006
Código do texto: T170464

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Sobre a autora
Rosa Berg
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