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CICLOS (CÍRCULOS?) VICIOSOS

         
 Há dias em que se acorda com espírito de faxineira. Aquela coisa de querer limpar o mundo inteiro, fazer um enorme saco de lixo de todos os restolhos e transformá-los numa bela fogueira e um punhado de cinzas. Infelizmente, ainda não obtive delegação de competência do Grande Chefe para fazê-lo, o que me daria um enorme prazer. De qualquer forma, não pude deixar de me incomodar com todos os excessos em torno de mim. Devo acrescentar, apenas como esclarecimento, que isso sempre acontece após alguns silêncios a que me imponho. Silêncios a meu respeito, bem claro isso. Quem quiser falar, terá ouvidos. Quanto aos meus diabinhos, fico eu me entendendo com eles até chegarmos a algum acordo ou a um exorcismo compulsório que lhes imponho. Daí, olho em volta, meto o avental e arregaço as mangas. E salve-se (me) quem puder.

          Eu não sei dos outros, mas minhas faxinas sempre começam em gavetas escondidas ou esquecidas, por muito antigas ou simplesmente em desuso. Limpeza de passado. Já passou um tempo X , não usei e não tem mais serventia e ainda ocupa espaço – Lixo. Não passou o tempo X , tá empacando o caminho e ocupando espaço útil – Lixo. Isso quer dizer maldade ou pouco caso com o que um dia foi útil ou bom? Se você acha que sim, pára e pensa, como diz alguém muito querido meu. Não é assim que a banda toca, como diria o mesmo alguém. Isso apenas quer dizer que a vida é feita de ciclos e que ninguém constrói em cima de terreno que não tenha sido devidamente limpo e aplainado, de forma a poder receber uma estrutura sólida e sustentá-la.

          Então, nessa linha, por muito que nos tenham sido caros os bens, fatos e pessoas que tenham passado por nós, é bom lembrar que, a menos que tenhamos vocação para museólogos, antropólogos ou psicólogos e todos os logos que gostam de fuçar o passado tentando explicar o presente, a única coisa que interessa é que o futuro começa nesse exato instante que chega. E se você ficar gastando o instante do começo do seu futuro com aquilo que se foi, quem não vai a lado nenhum é você mesmo. O que foi ruim serviu de lição: guarde a lição e jogue o fato no lixo. O que foi bom não precisa de registro: guarde o prazer e esqueça o que o causou e que já não está mais presente e portanto não serve para o futuro. Mas é fundamental fechar o ciclo. Ciclos não fechados ou apenas mal e porcamente amarrados transformam-se em círculos. Viciosos. E todo mundo sabe quanto custa caro um vício.

          Curar vícios demanda faxinas igualmente. Só que cansa mais, demanda mais esforço e machuca o viciado e quem estiver por perto. Se seus ciclos andam em aberto, tenha a decência e a coragem de fazer um pequeno exame de consciência, como dizem na missa de domingo (eu não sou católica mas já fui a muuuita missa) e depois, moçada, faxina. Feche pra balanço. E só depois balance a rede alheia.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 07/06/2006
Reeditado em 15/01/2008
Código do texto: T171154

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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