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Sobre a pouca importância de Deus

Sobre a pouca importância de Deus

Se Ele está lá em cima ou aqui ao lado, ou ainda, em todo lugar, não interessa. Isso não faz a mínima diferença e nunca fará. Primeiro porque a vida é tão complexa e cheia de mistérios que não seria nenhuma surpresa nos descobrirmos errados, mesmo agindo certo (de acordo com seja lá que moral ou norma de conduta) e certos, mesmo agindo de forma errada.

A vida é absolutamente caótica e não segue nenhum rumo visivelmente pré definido. Achar é a principal derrocada do ser humano, quanto menos acharmos, mais possivelmente bem viveremos. E esse viver, não requer nenhuma moral, ou ainda alguma ética. Já que o viver não depende de nós.

Olhe para si mesmo, quanto de si mesmo você pode determinar? Basicamente tudo o que tens, de você mesmo, foi estipulado pelo meio em que você vive. Você não escolhe sua genética, não escolhe seus pais, não escolhe suas definições de personalidade. Achar-se livre é ser bitolado. Achar-se tolido e sentir-se oprimido é ser mais livre que muitas pessoas soltas no mundo.

O próprio mundo não interessa. Do momento em que cada ser tem sua visão parcial do mundo ele passa a ser uniformemente impossível de uma moral, cada um tem seu ponto de vista, e, conseqüentemente, vê e acha isso ou aquilo melhor. Achar que não há nada melhor ou pior é um outro passo importante para ser livre.

Ser livre, se dependermos da filosofia religiosa a liberdade está aí para não servir para nada. Só poderíamos agir de um jeito e esse jeito deve seguir a todo um conjunto de regras. Seria bom se não fosse impossível seguir-se a risca esses mandamentos, regras, esses paradigmas.

Aprender que tudo o que nos rodeiam nos definem e nós que definimos tudo o que nos rodeia é se ver no meio do paradoxo que chamamos vida. Creio que não podemos voar por conta própria porque não acreditamos nisso de fato. Creio que não podemos ser mais do que somos porque nos acreditamos pequenos.

Somos Deus e Ele é nós. Nessa simultaneidade temos o nosso paradoxo único da vida, somos o que somos, procurando não sermos, e buscando fora de nós o que só podemos encontrar dentro de nós. O vazio. Somos átomos, que por uma certa razão probabilística se arrumaram nessa formação que somos nós. Somos átomos e vazio. Aceite ou não a nossa configuração é assim.

Tudo é átomo e vazio, creia ser Deus o vazio que nos engloba, creia sermos os átomos. Deus está em tudo e tudo é Deus. O grande vazio entre nós, entre nossos átomos, é divino? O vazio não fala, o vazio não tem moral, o vazio não é nada, além de vazio.

Existe Deus? Sabe-se lá, é preciso crer Nele para ser bom? É preciso ser religioso para se agir de forma a uma convivência pacífica? Não, porque se bastasse não teríamos tantas desgraças causadas pelo ego humano.

É preciso, primeiro, crer em nós mesmos. Átomos e vazio. Somos isso e somos constituídos pelo vazio que nos engloba. Além de nós não resta nada, o mundo fora de nós não é nada, pois quem o define somos nós. Quando crianças somos adestrados a definir o nosso próprio mundo, de acordo com os moldes passados por outros, mas sempre contribuímos com nosso toque para florear o mundo.

O que é a vida senão o romance da crueza, da nudez dos átomos envoltos por vazio? Fazemos nosso próprio romance de nossa vida. Que não passa apenas de um eterno esboço que se perde assim que se completa uma outra parte dele. Estamos nesse fluxo inacabável de futuros passando pelo presente e virando imediatamente passado.

Essa idéia chega a ser perturbadora, ela não nos dá chance a viver o presente. Creio que vivemos no eterno presente. A eternidade como idéia de atemporalidade, do que uma extensão infinita de tempo. Vivemos no presente apenas, para sempre. Nossa memória nos dá a ilusão de passado que temos e com ela projetamos o futuro. Ilusão. Nada além de vazio e átomos.

Temos o aqui e o agora. Temos somente uma única coisa. A vida. Ela é constituída pela morte também. Mas a morte é o fim do ser, e como a vida é a única coisa que temos, como certo, fazemos dela o melhor possível. Quem consegue viver sozinho?

Aqui esbarramos no romance de nossa vida com o romance dos outros. Precisamos fazer um mega romance. Sem nunca contar com a compreensão do outro assim como o leitor nunca vai compreender o que se passa pela cabeça do autor. Crer que o que o autor eterniza em suas palavras é o que ele pensa é crer-se ilusoriamente dono de uma verdade, ilusória.

Somos, então, vazio e átomos. Com uma idéia romantizada da verdade indubitável. Tentando conciliar nossos romances com os romances alheios, achando crer que entendemos os dos outros e tendo fé que os outros entenderão os nossos.

É muita esperança e pouca fatuidade. Ajamos com os fatos. Temos que fazer as coisas e não esperá-las acontecer divinamente. Vivamos o presente vazio agora, pois é o único que temos e sabe-se lá que tipo de deus vai estar nos olhando, apenas sabemos que não é necessário crer nele para ser bom, pois ser bom é ser a favor da única coisa que temos, nossa vida, nua e crua. Nada é bom, nada é ruim. Desejo apenas.

Se eu desejo, meu desejo transforma aquilo em coisa boa. Se como algo que me faz mal, sofrimento, não o como mais. Essa é a única verdade que temos. O corpo sofre, não desejamos. O corpo regozija, desejo. Nossos desejos se encontram? Satisfaçamo-los conjuntamente sem que todos sofram o máximo nem um regozije o máximo. Moderação e paciência. As duas virtudes que abrem as portas a todo o nosso convívio. Faltam? Trabalhemos, não teremos outra vida para isso. Não teremos, nunca, mais que o vazio e os átomos. Trabalhe agora, modere agora, sê paciente agora, seja feliz, regozije. Sofrerás? Certo! Nunca duvide, apenas aprenda a viver de melhor forma a que a felicidade esteja mais presente. Sem esperar nada mais que o vazio. Afinal ele está e é tudo o que somos. Tirando os átomos, mas esses são apenas 10% do todo. Creia, somos vazios e quanto mais aprendermos a aturar o vazio melhor ficaremos, conosco. Quem duvida que o problema com os outros não é um problema conosco?

Creia, vazio e átomos, é tudo que terás. Se quiser a verdade. Se preferir o romance, necessário, mas só, farás sofrer. Preferindo sofrer a ser feliz, a vida é sua, o vazio todo seu. Deus, existindo ou não, não está nem aí para você. Ele é o vazio. Queria você ou não.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 08/06/2006
Código do texto: T171754
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz