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Wooly Bully

O rock'n roll das décadas de 50 e 60 envolve o lugar. O convite para balançar o corpo nesse ritmo convida todos para a pista. A penumbra esconde um pouco certas imperfeições das pessoas, uma espinha na face, uma ruga do canto da boca, mas acentua a cor do batom das mulheres. A fumaça dos cigarros se impregna nas roupas e cabelos e toma o lugar do perfume que os homens e as mulheres passaram antes de sair de suas casas. Bartenders agitados procuram dar conta dos pedidos de drinks e cervejas, mostrando agilidade e um bailado entre copos, garrafas, liquidificador e mixer. Em certos momentos, eles se colocam em cima do balcão e dançam sensualmente o Wooly Bully. Garçonetes a caráter encantam e servem entre sorrisos. Cada gole de bebida provoca uma libertação maior entre todos que lá estão. O drink em brasa é bebido rapidamente com um canudo e proporciona uma sensação quase demoníaca. O chão quadriculado em preto e branco dá um ar de nostalgia levando-nos a uma viagem ao passado.

Chegam casais, grupos de homens e mulheres e até os corajosos solitários. Os desacompanhados buscam a aprovação de um olhar para a aproximação.

Dentre os acompanhados existem os que trocam olhares maliciosos com outros, que não seus acompanhantes, num jogo de sedução. Ao longe observo dois casais conversando, cada qual com seu acompanhante, mas a mulher de um notoriamente se insinua para o homem da outra e ele a seduz com um olhar mágico.

Aquilo me chama a atenção e, do balcão do bar, fico observando. Não consigo reprovar a situação. Percebo uma troca de desejo contido, de emoções reprimidas, numa atração incontrolável. Sorrateiramente, eles se tocam, ora mão com mão, ora mão na perna. Não entendo como os acompanhantes não percebem a troca de olhares e o jogo das mãos.

E a música prossegue, e as bebidas continuam a chegar. E aquele casal continua na cumplicidade do momento. Engraçado, não consigo enxergar a imoralidade nem o erro. Talvez porque eles estejam se apaixonando um pelo outro. E quando a paixão começa é quase impossível controlar.

Vem-me à lembrança o filme "As Pontes de Madison", quando Francesca abdica do amor do fotógrafo Robert em nome da família. Por uns dias vivem aquele amor e esse amor somente será depois vivido em saudades, sonhos e lembranças. Acho que não vale a pena impedir a explosão da paixão. Por isso não julgo aquele casal em atitudes de sedução.

De repente, sou chamada de volta à realidade. Corro para a pista e começo a dançar o rockabilly com sensação plena de liberdade.
Cris Marco
Enviado por Cris Marco em 11/06/2006
Reeditado em 17/02/2015
Código do texto: T173536
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Cris Marco
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
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Cris Marco