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"Moça, quer morar comigo numa cidadezinha no interior?"

Tenho uma linda namorada. Ela gosta de coisas simples, como eu. Coisas comuns, como caminhar de mãos dadas na praia, “assistir” comédias românticas embaixo do cobertor durante o inverno, beijar tomando banho de chuva. Ela á professora. Eu trabalho na área administrativa de uma multinacional. Eu moro em Santo André, e ela em uma cidade aqui da grande São Paulo. Recentemente, a convenci de prestar concurso para dar aulas em alguma cidadezinha no interior. A princípio, ela achou estranho, pensou que fosse brincadeira. Mas após ouvir meus argumentos, ela aceitou. E passou no concurso. Eu pedi para meu chefe me mandar embora. Disse que, caso ele não aceitasse, passaria o dia inteiro a ler piadinhas no e-mail (o que já fazia, em boa parte do dia). Ele acabou aceitando, mesmo porque a empresa estava passando por uma forte reestruturação (a 5ª, em menos de 2 anos).

Com o dinheiro de minha rescisão, mais algumas economias, mais o dinheiro da venda de meu carro zero, compramos uma casa, um Fusca (para mim) e um Uno 96 (para ela). A casa, típica de interior, grande, com jardim, que custaria mais de R$ 200 mil se fosse em São Paulo, compramos por R$ 30 mil. As únicas luxúrias, por idéia minha, que constavam na casa, era uma churrasqueira e uma banheira de hidromassagem. Com um pouco de trabalho, encontramos a casa. Nem bem mudamos, já adquirimos 2 cachorros, para alegrar o jardim: Um Labrador, chamado Lambão (de um desenho que não me lembro o nome), e outro vira-lata, adquirido de uma carrocinha da região, chamado Floquinho (do Cebolinha!!!). No começo eles brigavam, mas depois não conseguiam viver separados. Como eu e minha esposa.

Como disse anteriormente, ela é prefessora, mas apenas no período da manhã. Eu dou aulas de inglês, também na parte da manhã, e tento ganhar algum troco com minhas poesias e crônicas (muito difícil !!!), pois tenho tempo para desenvolvê-las. Ao chegarmos do trabalho, preparamos um delicioso almoço, em plena terça feira. “ – Amor, que tal um peixe assado na churrasqueira?” “ – Claro benzinho, vou preparar uma caipirinha”. Após a degustação, pegamos no sono, no sofá da sala, ao assistir sessão da tarde (Curtindo a Vida Adoidado, Quero ser Grande, Te pego lá fora, etc). Quem acordasse primeiro, prepararia a banheira. Após o banho relaxante e detalhes omitidos, caminhamos em direção às montanhas, sob o céu estrelado. Ao chegar, pego o violão e toco uma música dedilhada (não sabia dedilhar antes de vir pra cá) em sua homenagem.

Poucos meses depois, conseguimos distinguir o assovio do pardal, do assovio da andorinha. Conhecemos todas as cachoeiras e trilhas que são tão comuns nessas cidadezinhas. Chamamos os vizinhos pelo nome. Há um pequeno entrave: esses vizinhos espreitam um pouco, digamos, demasiadamente, nossas vidas. Mas nem ligamos. Recebemos nossos parentes (eu não consegui convencê-los a mudar também!!!) e amigos, quando querem, com uma bela churrascada (“bem, que tal picanha desta vez?”. “Claro, vou colocar mais cervejas na geladeira”). Mas é claro, eles têm que dormir em colchões no chão. Em alguns fins de semana, vamos à praia, caminhamos de mão dadas, visitamos as pedras e cavernas, e mais detalhes censurados. Nos feriados prolongados, como carnaval, vamos a São Paulo. Esta cidade é maravilhosa, quando não há trânsito, ou a obrigação de se correr mais veloz que o tempo. Apreciamos os belos teatros da cidade, o parque Ibirapuera, comemos o pastel de bacalhau e o sanduíche de mortadela do Mercadão, e até vamos comprar bugigangas na 25 de março. Mas só nos feriados.

Após alguns anos, criamos nossos filhos. Eu tentei convencê-la de termos uns 4, mas ela queria apenas um casal. Tivemos 2 meninas – Catarine e Darla (do filme dos batutinhas!!!). Tentei usar o argumento de que faltavam 2 homens para 2 casais, mas ela não quis nem saber. Tudo bem. As meninas eram lindas mesmo e minha vida estava completa. Mesmo com Mil e poucos reais por mês, conseguíamos ter uma vida plenamente satisfatória. É bem menos do que ganhávamos em São Paulo, mas em compensação, não temos que gastar dinheiro com tantas futilidades como: TV por assinatura, Internet, Plano de Saúde (cada vez mais caro), Seguro de Carro (mais caro que o próprio carro), condomínio, mensalidade de celular, R$ 5,00 por uma lata de cerveja na balada (fora os R$ 50,00 só para entrar), faculdade, pós-graduação, MBA, academia, etc, etc, etc. Passamos o mês apertado, mas conseguimos. E fizemos isso antes dos 30, pois muita gente faz essas coisas só depois de aposentado.

Chega! Muitos devaneios para um texto só. Já me imaginei sendo vocalista de uma banda de rock, colunista da Carta Capital, e até Presidente da República (na minha cabeça, cheguei até a escolher os assessores e ministros). Não tenho nem namorada! Mas, se um dia eu encontrar a mulher da minha vida, lhe direi uma frase e lhe farei 2 perguntas. Frase (muito encabulado): “Eu te amo!!!!!” Perguntas (também encabulado): “Você me ama???????” Caso ela respondesse "SIM!!!", a segunda seria mais fácil: “MOÇA, QUER MORAR COMIGO NUMA CIDADEZINHA NO INTERIOR????”.

ilsanches@gmail.com
Ivan Sanches
Enviado por Ivan Sanches em 11/06/2006
Reeditado em 12/06/2006
Código do texto: T173668

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Sobre o autor
Ivan Sanches
Santo André - São Paulo - Brasil, 34 anos
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