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MAMÃE ENSINOU: A GENTE AMA COM E NÃO APESAR DE

Família é um negócio engraçado. Tem o Gaiarsa, aquele psicanalista, que diz que a família é uma espécie de nascente das nossas misérias. Não deixa de estar certo, de vez que é nela que começamos a exercitar nosso modo de nos relacionar com os demais. É verdade que muitas vezes a gente quer estrangular todos os membros deste primeiro clube a que nos associamos. Aliás, como disse Groucho Marx, “eu não entraria pra um clube que me aceita como sócio...”
Não sei se é bem o caso hoje. Tempos atrás até concordaria com ele, já que o nome mais adequado para minha auto-estima seria baixíssima-estima. Durante muito tempo, por razões diversas e com a ajuda caridosa de muitos, eu estava perfeitamente bem enquadrada no clube do “pobre-coitada-de-mim-que-sou-uma-bela-porcaria-que-não-devia-ter-nascido”. Em resumo, aquele tipo que quando a mãe pariu, jogou fora a criança e criou a placenta. Aborto da natureza.Feia, desingonçada, descoordenada, incapaz de alguma idéia razoável (brilhante, então, seria pedir milagre), enfim, desprovida de qualquer predicativo.
Cresci numa cidade pequena, família muito conhecida e todo mundo com fama de geninho. Exceto, claro, este acidente de percurso que vos fala. Cinco irmãs e dois irmãos. Os irmãos nem contam, porque homem tinha privilégio e acabou-se. Entre as irmãs, eu era (ou pelo menos era o que eu sempre ouvia) o geninho do cão. Teimosa, geniosa, o cão de ruim.
-         Olha a tua irmã: dez em Matemática, dez em Ciências, dez em Física, dez em Português....
Sem falar no dez com louvor em Relações Públicas. Minha irmã era grande. Eu ficava impressionada. Até hoje fico. A danada é reconhecida até (e principalmente) pelos cachorros (virou Veterinária e das boas). Se o telefone tocasse, eu nem me dava o trabalho de atender, porque sabia que era para ela. Na escola, a gente só era conhecida pelo sobrenome, o que já me tirava qualquer direito a ter um oitinho. Só valia dez. E eu, ré confessa, era um terror. Tirava o necessário e tava de bom tamanho.Só espero que ela não me trucide por colocar estes podres em público...
Minhas irmãs mais velhas, da primeira remessa (era assim que minha mãe falava) eram todas moças ajuizadas e responsáveis. Criadas na época de vacas magérrimas, tiveram que, por força da necessidade, ter juízo e fazer o caminho. Eu, como era a caçula, confesso que tive tempos menos dolorosos, embora não fosse assim uma fartuuuura...Mas ouvia que era criada com dedinhos. Que papai tinha mais paciência, que eu tinha privilégios. Não era sempre, mas alguém sempre lembrava isso. Mea culpa? Acho que não. Mas na época, posso ter pensado que sim.
Mas o resumo de tudo, é que com todas as mazelas, as fofocas, os desentendimentos, os desencontros, a verdade é que quando a gente se encontra eu me sinto num lugar que realmente posso chamar “casa”. Com todas as diferenças, em cada uma das minhas irmãs e irmãos, eu vejo uma beleza diferente. Física e afetiva. Cada um me dá um amor diferente. A cada um, amo como se ama diferentemente cada pessoa. E todas estas partes formam um belo todo. Sem exageros. Não sou cega nem idealizo.
Minha mãe costumava dizer quando eu falava das diferenças entre os irmãos, mostrando os dedos da mão: “ Vê? São todos da mesma mão, e são diferentes...”
Hoje, lembrando a simplicidade da explicação da minha mãe, eu descobri a sabedoria por detrás: a gente ama as pessoas COM o que elas são, e não APESAR DE.
Em tempo: isso foi escrito porque ao criar o meu site de poesias aqui no Recanto (www.deboradenadai.prosaeverso.net),  minha maior alegria foi dividir com minhas irmãs e principalmente receber a visita e o comentário da minha irmã Elisete. Obrigada, Zete.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 16/05/2005
Código do texto: T17371

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154036 leituras)
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Débora Denadai

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