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medo do escuro...

     Ela acordou no meio da noite sentindo a sua bexiga quase a explodir depois de quase um litro d'água tomado antes de deitar-se. Cambaleando de sono, inclinou-se sobre o criado mudo acendendo a luz do abajour, levantou-se e andou até a porta. Empurrou-a, e olhando para baixo, viu sua sombra disforme no piso. Deu alguns passos em direção ao corredor e abriu a porta do banheiro. Acendeu a luz, andou, sentou-se no sanitário e tinha a impressão de estar dormindo ainda. Respirou fundo, tentando assim despertar sua consciência, e o conseguiu com sucesso. Levantou-se, andou até a pia, lavou as mãos, secou-as. Quando levantou a mão para apagar a luz, viu a penumbra que cobria o caminho até seu quarto.
     Apagou a luz.
     Deu dois passos.
     O pânico a paralisou. Havia a nítida sensação de que havia alguém à suas costas. Havia mais alguém ali, ela poderia jurar, mas de nada adianta jurar as paredes, pois até onde a nossa sanidade alcança, elas não têm ouvidos e não costumam servir de boas testemunhas.
    Uma sensação estranha no seu ombro, como se houvessem duas mãos segurando-a, inibindo qualquer movimento. E a vontade de gritar era imensa. O grito subiu de suas entranhas até sua graganta, mas a sensatez a impediu de gritar.
     Medo do desconhecido. Isso resume o que sentiu. Essa fobia é exatamente o fato de poder haver algo ali aonde nossas vistas não alcançam. E a vontade de gritar é enorme. É quase dilacerante ter que segurar o grito na garganta quando ele quase já quer sair.
     Mas não havia nada ali, dizia sua sensatez. Mas o medo era maior do que qualquer sinapse nervosa que levasse o seu corpo a admitir que não havia nada ali.
     Num gesto rápido conseguiu movimentar-se e acendeu a luz. Nada. Absolutamente nada. Um vaso no canto do corredor, o carpete, as paredes a porta, o resquício de luz que vinha de seu quarto. Novamente apagou a luz, e num andar rápido quase correndo devido ao pavor que o escuro lhe causara, entrou no quarto, deitou, apagou a luz, e num gesto rápido puxou as cobertas até o topo da cabeça e sentiu-se reconfortada.
     Medo do escuro. Medo do escuro... A última coisa que uma pessoa espera ter depois de adulto é medo do escuro. Um pavor que faz tremer, que impele ao limite da razão e sensatez de não gritar. Pois a única vontade é essa. Gritar.
Mariana Villa Real
Enviado por Mariana Villa Real em 12/06/2006
Reeditado em 17/06/2006
Código do texto: T173858

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Sobre a autora
Mariana Villa Real
Cruz Alta - Rio Grande do Sul - Brasil, 30 anos
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Mariana Villa Real