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EU: AMIGA DA MORTE



A morte anda me rondando estes dias. Cheguei mesmo a ver sua face: barbuda, sotaque paulista, problema no coração, riso triste... Mas outro dia, descobri-lhe apenas sisuda. Nunca deixa que a toque. Me teme? Quando lhe percebi próxima, virei-me para encará-la. Saiu apressada, deixando os sapatos de cristal (tão finos!) próximo a meus pés. O número era maior que o meu e resolvi não calçar. Deixei-os lá. Não ia brigar com ela por sapatos (mesmo de cristais). Já estamos amigas. Ela come em meu prato e já não me chama ao desespero. É lenta. Me chama lentamente. Descobri que gosta de música e de caju. E, às vezes, é mentirosa. Ela ronda. Conhece meu quarto, meu sabonete preferido, meu medo, meu sexo. Ela gosta de tirar fotografia. Joga dominó e baralho. Come muito, também. Estuda. Ela estuda muito! Seus olhos são claros e ela é barriguda, mas repentinamente, emagrece. Gosta dos homens. Ela ronda, ronda. Gosta do amanhecer, da estrada, dos tiros, das viagens... Ela gosta de flores. Ela tem chorado muito esses dias. Disse que me levasse e  fôssemos juntas. Tentei tocá-la. Ela esquivou-se e disse que gostava daquele cheiro de vela. Acendi mais seis. E assim fomos pegando mais amizade. Ela voltou! Silêncio! Outro dia, quando gritei, ela ateou fogo em meus lençóis. Restaram minhas cinzas, mas não me aborreci. Já conheço-a profundamente. Disse que me levaria à universidade e me arrancaria de lá pelo coração. Pedi-lhe calma. Sentou-se e, pela primeira vez, senti o seu frio. Queixou-se da próstata e do braço. Apenas fiz uma massagem. Às vezes me arrependo de não me importar com suas dores e sua solidão. Disse que não gostava de chegar repentinamente, sem avisar; mas todos parecem surdos. E ela chega! Irremediavelmente, ela chega. Enxuguei-lhe a lágrima. Ela agradeceu, mas pediu para manter distância. Perambulou pelo quarto, apagou as luzes e não ligou a TV. Estranhei: ela gostava muito de TV. Explicou que hoje era preciso pensar. Pediu que eu fosse dormir. Obedeci porque já estava mesmo cansada e queria o meu silêncio. Quando acordei, ela havia ido embora e nunca mais apareceu. Deixou apenas o cheiro de vela e formol na minha saudade ou tristeza
carla nobre
Enviado por carla nobre em 13/06/2006
Código do texto: T174983
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Sobre a autora
carla nobre
Macapá - Amapá - Brasil, 41 anos
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carla nobre

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