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A primeira Professora

A primeira professora - Clevane Pessoa de Araújo Lopes

                  O feminino mostra que as professorinhas eram mulheres,mocinhas ou não.No meu tempo de normalista-não sei como se chamavam em Portugal- aqui no Brasil, as salas somente tinham meninas.Havia até aquela música ,"Normalista", cantada na voz inconfundível de Nelson Gonçalves("vestida de azul e branco/trazendo um sorriso franco/no rostinho encantador(...)minha linda normalista/rapidamente conquista/meu coração sem amor(...)" e por aí, ia , fazendo-nos sentir ser especiais).Hoje, o curso tem o nome de "Magistério" e há algum tempo,vemos rapazes a estudar para alfabetizar criancinhas.A figura grácil, fantasia de muitos homens, vestida com saia de pregas e meias 3/4, vai bem longe...
                    Mas, quandofui escrevinhar, minha cabeça deu nó.Primeira professora?Quem?Estudei em tantos colégios, de cidades, estados e ruas diferentes, porque papai e mamãe adoravam viajar, mudanças e novidades, que ...onde estaria o rosto e o nome dela?Pensei que, aos cinco anos,morávamos na Ilha de Fernando de Noronha, onde, por sinal, fiz minha primeira comunhão-hoje"Primeira Eucaristia"-e eu estava na primeira série, sendo aluna de "Tia" Aracy, a madrinha amazonense de meu irmão Luiz Máximo, que viera passar uns tempos naquele paraíso , para ajudar mamãe a tomar conta das crianças.É que apesar do Máximo ter apenas pouco mais de um ano, mamãe resolvera pegar gêmeas para adotar e de três ,viramos cinco da noite para o dia.
"Tia Aracy, professora em Manaus, foi convidada pela mulher do governador,para assumir uma classe.E lá fui eu, sem idade para a primeira série, mas por estar perfeitamente alfabetizada e dominar a tabuada, capaz de acompanhar a turma .
               Dessa escola, lembro que passava por maus momentos:tinha de bater com palmatória no colega que errasse a tabuada, logo após minha resposta, sempre correta.Eu batia bem de leve, morrendo de pena e a professora fingia que não via.Contei a mamãe o quanto aquilo me horrorizava e ela entendeu-se com a "dindinha"de meu mano:não me perguntasse a tabuada.Bastava que soubesse que eu já a decorara e que nas provas, eu o provasse.E pronto.Fiquei livre de ter que castigar coleguinhas.Diga-se de passagem, que esse método já era mais que arcaico na época,mas "Tia" Aracy, a mais doce das criaturas que já conheci, no seu Estado, ainda o usava, sem cogitar na crueldade, talvez ela própria tendo sido assim educada.A Psicologia ainda não era tão conhecida assim, senão, alcançaria que ou estariam os professores incentivando a crueldade em uns ou enchendo de "culpa",essa palavra de chumbo, em outros...O certo é que tia Araci me ensinou boa educação, artesanato, e o melhor:deixava que "a minha fantasia tecesse suas mantas em meu coração", como escrevi numa outra poesia, além de transformar-me em de lamadora, apaixonar-me por teatro...
               Mas enquanto escrevia, sabia que estava falando da segunda primeira professora de minha vida.A primeira foi incontestavelmente,minha mãe Terezinha doMeninoJJesus, que nasceu para ensinar tudo.Quando eu tinha três anos, meu pais sairam de Manaus(onde conheceram a família de "Tia" Aracy)para Japurá, fronteira com a Colômbia.Na frente, o Rio Amazonas, atrás, a famosa floresta de mesmo nome.como meu pai era telegrafista, chegava em casa e dizia:"Teca"(minha mãe), há uma vaga em...O certo é que jamais ouviu um impecilho sequer.Nem a escola das crianças-o que em nada me prejudicou, pelo contrário:Geografia e História, anos depois, fui aprendendo ao vivo, com papai, outro professor "de nascença", o que deixava meus coleguinhas um tanto iunvejosos e as professoras boquiabertas com o  que eu narrava sobre araras e encontro das águas.Com a mesma desenvoltura, descrevia caatinga e floresta,botos e onças(até criáramos alguns animais selvagens, domesticados pelo poder inexplicável de mamãe sobre os ditos irracionais)...
                          Pois lá, depois de fazer fornadas de biscoitos(disputados por nós e pelo macaco Chico),lavar roupa sentada em pedaço de madeira(o "porto flutuante'das caboclas), coisa que jamais fizera antes, tecer tricot e crochet, bordar à máquina, viu-se minha genitora a pensar no que fazer.Não havia lojas.Não havia escolas.Era um posto de fronteira do exército, com cerca de seis casas palafitadas, muitos maruins a nos picar("só enquanto forem sangue novo", consolavam os que ali moravam a mais tempo")e índios e colombianos a nos visitar, curiosos...Então, já que aquela pessoa cheia de vitalidade estava sem ter o que mais fazer, resouveu-me a ensinar o "be-a-bá".E assim aprendi a ler e escrever rapidamente.tudo era contabilizado , para que eu entendesse a matemática.Meios e quartos, lidos nas fatias de bolo que ela inventava comos produtos disponíveis.
                           O amor pela leitura e pela escrita, jamais me abandonou.Até porque, mamãe era de uma família de missivistas.Com essa tenra idade, comecei a trocar cartas com os parentes sempre distantes e mais tarde, com colegas e namoradinhos deixados para trás, ora entre lágrimas, mas sempre coma alegria de,mudando-me, estar a renovar o ciclo de minha vida...
                           Portanto,com prazer, registro:minha primeira professora, foi minha mãe.O primeiro professor, meu pai...E que sorte tive com isso!...
clevane pessoa de araújo lopes
Enviado por clevane pessoa de araújo lopes em 17/05/2005
Código do texto: T17509

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Sobre a autora
clevane pessoa de araújo lopes
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 69 anos
555 textos (176727 leituras)
21 e-livros (13423 leituras)
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