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Gratidão, Sempre

Gratidão, sempre(I)

Clevane Pessoa de Araújo Lopes

                  Quando comecei a fazer psicologia, na década de setenta ainda, havia poucos livros editados em português aqui no Brasil.A maioria era em espanhol ou inglês.Para comprar aqueles grossos, de capa dura, eu teria de trabalhar muito mais que já o fazia.Nessa ocasião, separada de marido, com filho pequeno, eu era funcionária pública-dessas de chamar serviço, graças a Deus, jamais eu caberia na expressão “funcionário público não trabalha” ou “pessoa que ajuda o chefe a não fazer nada”.Além disso, continuava a fazer minhas matérias para a Gazeta Comercial,realizava entrevistas nos fins de semana-fazia-as até por carta, lecionava Português para supletivo e Literatura para cursinho, o “Pré-Psiquê, do GET,Grupos de Estudos Totais.E ainda mantinha em casa uma pequena butique de roupas que vendia para colegas de faculdade, vizinhos.Hoje olho para trás e me pergunto como é que dava tempo de ter tempo...
                 Malabarismos de corre-corre:saía de casa bem cedo, depois de levar meu filho, Cleanton Alessandro, para a casa de meus pais e ia para o INAMPS.Trabalhava na pediatria, como antes na clínica geral,na cardiologia, na gastrenterologia,no Centro cirúrgico.`Ahora do almoço, literalmente voava para chegar a tempo de apanhá-lo, banho tomado e lindos grandes olhos expectantes,para levá-lo à escola.Ele era apegado a mim,embora tivesse praticamente duas mães, já que a minha, avó dedicada, cuidava dele muito bem.Mas talvez a separação conjugal , ao provocar nele os primeiros registros de perda, o deixasse ansioso.Eu ia com ele, divertindo-nos, pois  era criativo, brincalhão e inquieto, entrava aqui e lá, pulava no meio fio, num pé só, eu rindo e segurando a tralha costumeira:merendeira, mochilinha, brinquedo.
                     Entregava-o às freirinha e corria para o trabalho.Muitas vezes, nem tinha tempo de almoçar e apenas lanchava na faculdade.Ia correndo e de repente, meu coração materno criava asas.Pressentindo algo, eu olhava para trás e lá vinha ele, correndo atrás da mãe fujona ...e as freirinhas atrás dele, com os véus adejando em torno dos rostos preocupados.Depois que o coloquei em uma escolinha perto da casa de meus pais foi que ele sossegou, meu desenhista e músico ...
         Minha mãe era dessas avós muito "levadas", ela própria.Não raro, eu chegava e encontrava-a na maior farra, dando banho nas crianças-meu irmão Júnior,que tem síndrome de Down, crianças da vizinhança-de mangueira.O meu, com dor-de-garganta.E eu nada dizia.Era muito melhor deixá-lo com essa contadora de histórias nata, que morreu adolescida, aos setenta e sete anos, num acidente,do que com babás...Ele conta até hoje que era o último da fila  para ela dar cafuné...Primeiro meu pai, depois o Juninho,somente então, ele.Nunca serei suficientemente grata a essa mulher maravilhosa que nos criou, sem medos, sem mentiras, louquinhos por bichos e plantas, amando a dança, ouvindo canções antigas e que depois foi capaz de assumir o netinho para a filha poder ser psicóloga...
                      Quando entrei para o Centro de Ensino Superior, o CES, no alto da Rua Halfed, onde funcionava a velha Academia de Comércio ,no qual depois ele foi estudar sua primeira série de primeiro grau, mamãe abriu uma conta na Livraria Viviane, para eu poder comprar os livro...
                             Ainda assim, eu não podia ter todos.Um dia,criei coragem e ofereci ao dr.Cyro Espíndola, um cardiologista de mansos olhos,uns romances que eu recebia das editoras para fazer crítica literária-a propósito(a propósito,,noutro dia entrei no site  Nave da Palavra e encontrei um artigo chamado Desmoiselles,onde um certo José Luiz coloca-me em excelente companhia ao citar os bons críticos literários do país.Fiquei  agradavelmente surpresa de que ainda, em pleno novo milênio ,alguém de mim se lembrasse).Pois o Dr. Cyro, ao saber que eu precisava do dinheiro para  livros escolares, começou a comprar um ou outro, quando eu estava precisando .E numa época que todo mundo me cantava porque eu era jovem e desmaridada,ele sequer lançou-me qualquer olhar mal intencionadao.Mamãe, algumas vezes, com a cara e a coragem, ia ao andar da cardiologia, levar-lhe meus livros e trazer algum valor.
                  Quando me casei e tive de sair de Juiz de Fora, para fazer o último ano na FUMEC, em Belo Horizonte,ele surpreendeu-me, devolvendo-me todos os volumes que aparentemente comprara...Fiquei realmente surpresa e grata, por isso quero registrar aqui essa atitude, tão inusitada.Nunca mais o encontrei, mas sempre me lembro de seu rosto, do modo de acalmar os cardiopatas, mesmo franzindo levemente a testa de preocupação.Com ele aprendi outra ciência:a de contar resultados, da forma mais branda possível...Espero que ainda viva e esteja saudável .
                     No Plano Especial de Pediatria(PEP),meu chefe era o peditra boliviano naturalizado brasileiro, Dr.Waldo Vergara Rojas.Ele estava escrevendo um livro sobre desnutrição, e embora sendo poeta e escritor, claro que dava escorregõezinhos de gramática.Ao ser conduzida para trabalhar com ele, eu estava ganhando a sorte grande.Ele não só me enchia de literatura médica sobre crianças e adolescentes, como também me presenteava com livros e ainda me orientava nos trabalhos.Uma vez fiz um sobre balbucios e ele me emprestando o próprio gravador, que eu não tinha, chamava-me no posto de trabalho sempre que aparecia um bebê na faixa etária que eu precisava...Parecido com nossos índios de tribos do Mato Grosso, ombros largos  e quadris estreitos ,cabelos lisos muito pretos,era um prazer vê-lo  tratar as criancinhas desnutridas, falando com elas ternamente e aconselhando as mamães desconfiadas com seus nos conselhos...Dava gosto vê-lo passar as mãos naquelas cabecinhas de cabelos ralos e secos-sinal de desnutrição- enxugar os narizinhos que escorriam-e eu, que antes tinha nojo de tudo, aprendi com ele o pele-com-pele.Quando o compêndio saiu, ele colocou duas das minhas trovas na abertura:
Estranho,amargo absinto,
Essa miséria num lar:
A mãe,que ao filho faminto
Nem seu leite tem pra dar...

Há no mistério da fome,
Esse mistério profundo:
É Cristo quem se consome
Em cada pobre do mundo...

Impossível não se apaixonar por pessoas assim, que amam o que fazem.Acho mesmo que ele foi meu guru nessa minha grande paixão que é a Psicologia...
                  Noutro dia liguei na Tv Rede Minas,daqui de belo Horizonte,e lá estava um médico, de mesmo sobrenome, falando exatamente como ele falaria, mas sem sotaque.”O Beto quer ser médico também" , contava Dr.Waldo orgulhoso.Adorei ver que um filho seguiu seus traços...Certa feita, o revi, ao voltar do Pará para Minas, já nos Anos 90.Estava dando palestras sobre adolescentes,no Centro de Estudos e Pesquisas(antigo CEAPS, hoje NEP)do Hospital Júlia Kubtscheck, quando a porta se abriu e ele entrou.Parei tudo para dizer  aos presentes que meu guru acabara de entrar, muito emocionada.Quantas pessoas nesse mundo podem ser co-responsáveis pelo nosso êxito profissional?O Dr.Waldo foi uma dessas, a quem presto um tributo de gratidão plena...
                   Desde então, venho tentando ser, o mais e o melhor possível, um esteio para os jovens que precisam de mim.É uma indireta forma de agradecer a quem me ajudou, de manter forte a cadeia da fraternidade...

(Lida no Hospital Júlia Kubtscheck, no Dia do Médico, nos Anos 90, não me lembro qual exatamente.)
clevane pessoa de araújo lopes
Enviado por clevane pessoa de araújo lopes em 17/05/2005
Código do texto: T17551

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Sobre a autora
clevane pessoa de araújo lopes
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 69 anos
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