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A Copa do Mundo

A Copa me consome, passo os meus dias, lendo notícias, críticas, crônicas, vendo videos, ouvindo as declarações de jogadores e treinadores, especialistas e leigos e tudo isso me faz lembrar de todas as copas que segui até agora.

Me lembro da primeira copa que segui, 1982 a copa do Naranjito, da bomba de Éder, da elegancia de Sócrates, do grito de gol emocionante do Falcão, da sambadinha humilhante do Júnior e da genialidade do Zico. Lembro-me do choro após o jogo contra a Itália, equipe bem menos técnica que o Brasil. Apesar da derrota aquele time marcou o futebol no mundo, e se tornou espelho do futebol espetáculo, e cá prá nós. Merecidamente, ainda hoje sinto os olhos marejados quando me lembro daquele time e do seu trágico fim.

Depois veio México e o Araquém. A "pimba na gorduchinha" e o Careca. Mas o time era bem mais limitado que o da copa anterior, e a eliminação se deu de maneira dramática. Nos pênaltis contra a França de Tigana, Platini e outros. Foi uma copa que marcou minha vida, não pela derrota do Brasil, mas sim pelo meu braço quebrado, meus dois dias em estado de choque, totalmente inerte, das operações e da difícil recuperação que se deu durante todo o ano. Até hoje trago as consequências daquele acidente.

Daí 90, copa do "Ciao", da Alessandra Nanini e sua voz rouca, do Caniggia e sua fitinha e do Maradona no começo do fim. A copa que deu início ao time que 4 anos mais tarde viria a vencer o mundial. A copa de 90 foi a pior do ponto de vista técnico mas trouxe para o mundo o Roger Milla e o simpático Camarões. Na Bahia, todos torceram por eles, e sentimos muito a sua desclassificação ante a Inglaterra de Liniker, Platt e Paul.

Copa de 94, copa do Tio Sam, copa das minhas férias no Mato Grosso e Goiás. Copa do título, do sofrimento, do Taffarel, do Zagallo e do Parreira. Do Dunga e do Bebeto acalentando seu filho "virtualmente" e do Baixinho marrento que nos tirou do sufoco quando a coisa ficou preta, ou melhor, loira, pois a Suécia foi um osso duro de roer. Final sem sal, medo dos dois lados, duas grandes escolas do futebol frente à frente, um peso enorme e 24 anos de espera. Pênaltis, eu não assisti, saí da sala e fiquei esperando os gritos. Chorei e cantei o hino, bebi e perdi a voz. Era meu primeiro título e minha primeira final.

Da coca-cola para a champagne, de Manhatten para os Champs Elisées. Muito time bom, bons jogos e muitas finais possíveis, mas deu Brasil de novo no jogo decisivo, depois de uma semi que quase me matou e o velhinho também. Taffarel brilhou e conquistou o carinho de todos. Mas daí aquela tragédia. Ataque de epilepsia no nosso maior jogador. Seleção entra no estádio sem Ronaldo, escala Edmundo Animal. Mas Ronaldo aparece, ao menos seu corpo. Foi um time irreconhecível e o que seguiu todos nós sabemos. Un, deux, trois, aurrevoir le Brésil.

Ohayo Nihon, lá se foi a copa do mundo para o outro lado da terra. Copa atípica, pessoas acordando de madrugada, e times grandes com campanhas pífias. France e Argentina saindo na primeira fase e o Brasil inteiro mobilizado para levar o Baixinho. Mas a truculência do gaúcho prevaleceu e ele venceu a copa com o um time feio de se ver, bruto, jogando o anti-futebol típico dos times dos pampas. Eu não gostei dessa copa, dela fica apenas a lembrança do título e nada mais. A Final foi feia, o adversário foi indigno de chegar tão longe.

Agora tudo outra vez, os mesmos medos, e os mesmos sonhos, uma cobrança enorme, e a nossa seleção se tornou uma marca mundial, um produto a ser consumido por todos. Não é a seleção do Brasil mas sim do mundo. Todos querem ver, todos querem vencer, para se tornarem lendas por terem desafiado os deuses da bola. Mas nem bem começou a copa e os deuses se mostraram do seu lado mais humano. Temos um time de ouro no banco, mas o conservadorismo exagerado do treinador, o impede de mudar o time e em respeito à história de um jogador, corremos o risco de afundar o Titanic antes mesmo de zarpar.

Ah... a Copa do Mundo me consome.

Ullisses Salles 16.06.06
Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 16/06/2006
Código do texto: T176457
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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 40 anos
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