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A Nau dos Indecentes na Era dos Shoppings Centers

Tarde raivosa. Teresina é sacudida por conhecidos vendavais. Relâmpagos cortam céus e trovões anunciam que não tardará chover. O vento forte faz convite à roupa da patricinha: mostrar seu desalinho com peças da moda e estropiadas nas cercas farpadas do sistema do "bem se mostrar” – mesmo com a conta sangrando vermelho devido à futilidade da nova Era Shopping Center de consumo. Vivemos um novo tempo onde livros e autores, raramente, são assuntos das rodas de conversa. Um novo império, um novo ditador: o reino do “besterolismo televisivo” corrompendo novos intelectuais e aniquilando os sobreviventes de periferia; estes, mais frágeis, entregues aos hodiernos "trash midiáticos", carregados de inutilidades e sangue. Em pleno meio-dia, sob o comando de alguns falsos formadores de opinião – a maioria com canudos de universidades particulares e sem livros-, as mentes são alimentadas com inutilidades e interesses políticos-empresariais.

"Só quero saber do que pode dar certo \ Não tenho mais tempo a perder." À minha frente, a poesia de Torquato Neto exposta; ferida aberta – não resolvendo nada, mas revolvendo a alma; clamando por ações e mudanças das mentes subjugadas ao conceito da nova “formula” de viver: Quem muito ver TV não tem tempo para ler!

A chuva começa a cair. A água correndo, lavando a terra... Levando sujeiras das ruas e dos homens para os bueiros; caminho mais fácil ao Velho Monge. A patricinha se esquiva da chuva, sabe do risco da transparência; esconde o corpo, não se deixa mostrar no agueiro, mas sabe que toda alma é transparente: se manifesta a todo instante pelo nosso olhar, pelas nossas ações... Os relâmpagos riscam versos no céu, mostram uma alma maior: transcendental! Aproveito a luz momentânea e viajo entre palavras enigmáticas das últimas horas do poeta:

"Tenho saudade (...) do dia em que sentia e achava que era dia de cego...” Um raio cai na minha mente: nada mais obscuro, tudo muito claro...

A chuva agora é forte, despenca sobre cabeças estropiadas pelas aparências de consumo.  Aparências que evitam ver verdades expostas; mentes sob a chuva devastadora de conceitos efêmeros; vidas sem o magnetismo da enigmática proteção do espírito poético...

- Tá na hora de fechar, moço... - O guarda alertando sobre as intempéries do tempo. Apenas cinco da tarde, leitura com hora marcada, muita chuva me espera; a noite não tarda vir. Atrás ficam cópias "d'Os últimos Dias de Paupéria”, trancafiados na indiferença dos homens. Desprezo com a cultura, o tempo hodierno impondo regras, horas... A “burrocracia” não nos deixando viajar mais tempo nessa “Navilouca”.



Vou indo, anotações sob a roupa; minha busca das incertezas resguardadas às horas incertas. A chuva faiscando nas paredes de concreto, querendo entrar, arrastar segredos dos homens. As águas correm no asfalto, levando papéis com anotações jamais relidas; quem sabe, pedaços de vida anotados em horas de desespero.

Quebro a primeira esquina. Na porta do bar de Streep tease, uma jovem (molhada e transparente) sem medo de se expor, brinca com o microfone na boca - esta, costumeiramente, acostumada ao "falo": Casa de show tal e tal... A putaria que deu certo; não fecha de dia nem de noite... Nem com chuva, meu amigo... Que entrar, moço?

Momentaneamente, um anjo torto insinua no meu ouvido: "E se a Casa da Cultura fosse ai, sem hora pra fechar; beleza, não!?"

Deixa pra lá, os anjos não sabem o que diz.

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Poetasdopiaui:Contronica - contos e crônicas que vi e vivi




Kal Angelus
Enviado por Kal Angelus em 17/06/2006
Reeditado em 16/01/2013
Código do texto: T177053
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Kal Angelus
Teresina - Piauí - Brasil
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