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Crônicas da Esquina ( Athayde e Bebeto )

 ATHAYDE E BEBETO

Aquilo não era possível. Nem mesmo a mais grossa urucubaca seria capaz de explicar o que se via naquela mesa do bar do Costa. Eu não acreditaria não fosse eu uma testemunha ocular daquela tragédia. Athayde afundava-se num cara a cara com o Rui e já amargava meia dúzia de cervejas sob a mesa.
 - Não é possível, meu Deus do céu! – bramia o nego véio.
Rui, como nos filmes de faroeste americano, não esboçava emoção e cravava um olho duro sobre o oponente atônito. Mãos estendidas, Tatá arremata:
Três aqui na mesa – Desvia o olhar do desafiante.
Rui espera um pouco, esboça um sorriso maroto e num tom grave, quase soletrante, murmura:
Lona.
    Era o imponderável. As mãos espalmadas anunciam a sétima cerveja. Aquilo soou ainda mais impactante que o filme de Bergman. Athayde estava lívido. Era como se a melanina lhe faltasse. Mas o pior era o absoluto silêncio do Rui que dava uma enorme golada na cerveja do pato e piscava um olho de cumplicidade para um alegre Bebeto, estrategicamente sentado às costas do Athayde. E Bebeto provocava:
Você é um otário mesmo! Como é que você vai pedir três de lona, mané?
 Athayde, tentando manter a calma, erguia o indicador e retrucava:
Peru é vinte! Peru é vinte!
Vinte é o que tu vai pagar se perder outra, mané.
    Aquela quantia gritada assim pelo Bebeto arrancou a gargalhada geral. Um anel formara-se em torno da mesa. Vitório, Osmani, Menudo, Serginho Metralha, todos amontoavam-se aos risos e tiravam uma casquinha do velho. Apenas o Rui mantinha uma seriedade cheia de ironia. Athayde olha em volta e, fera ferida, bate as moedas na mesa. Era a deixa, a forra. Movimento de mãos e ainda pôde ouvir o recado do Bebeto:
Vai perder de novo, otário!
    Rui põe a mão e abrindo um meio sorriso, dispara:
Dois pontos!
    Athayde parece enlouquecer:
Ih, o cara! Pedindo dois na mão dele!
    Então, com firmeza e determinação, berra:
Três!!!! Espalma a mão na mesa e expõe a única moeda que trazia.
    Um silêncio de morte. Rui espera e abrindo bem a mão sobre a mesa faz com que se cumpra a profecia do Bebeto.
Aparvalhado pelos duros golpes do Rui e das oito cervejas perdidas, o negão levanta-se para ir ao banheiro. Uma nova mesa, agora mais numerosa, ia iniciar uma rodada quando ele chegou, sentou-se e, destemido, atreveu-se a entrar sem ligar para os conselhos do Vitório. Resultado: não perdeu mais nenhuma. O motivo? É simples. O Bebeto saíra com o Rui para jogar tranca sob a amendoeira e, assim, não poderia mais soprar para o Rui os pontos que o velho trazia. Coisas da esquina. Mas isso o Athayde não sabe até hoje.

                                                                                      Aldo Guerra
                                                                                     Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 17/06/2006
Código do texto: T177258
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra