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Eu hippie?

De que vale a vida se não a aproveitamos. Melhor dizendo, do que vale se não conhecemos as pessoas que vivem conosco. Família, amigos, colegas de trabalho e até o cachorro são responsáveis pelos nossos sentimentos e aprendizados. Esse é meu primeiro trabalho nesse espaço. Aqui, colocarei minhas impressões e, quem sabe, farei parte da vida de alguns leitores. Para isso valer a pena, tenho de começar fazendo a minha parte. Conhecer meu colega de trabalho, o Guarabyra.

Eu não saberia definir o mundo certo, o real ou o dos pensamentos. Em mais um final de semana, já estava tudo programado e eu sabia que não iria acontecer muita coisa especial, apenas uma. Saí de manhã para conhecer um artista, adoro conhecer pessoas sonhadoras ou “vivedoras”, como eu.

Chegando em Diadema, fui ao encontro do meu futuro amigo. Avistei de longe os outros integrantes do grupo. Foi tão rápido e, particularmente, tudo tão bonito, que fiquei, mais uma vez, como uma estática e sorridente obsevadora. Fui para a frente do palco esperar Sá, Zé Rodrix e Guarabyra. Já ouvi o trio, mas nunca havia visto uma apresentação ao vivo.

Para o pequeno público, entrou Sá com um sorriso. Sorriso este que me permitiu, finalmente, entender um pouco mais dos hippies. Mesmo sendo um movimento norte-americano, percebi, mais um vez, que deve ter sido uma época muito boa aqui no Brasil. Com certeza há uma marca em todos os que puderam partilhar dos anos de droga, sexo e rock'n roll. Com a energia do palco, senti a sensação daqueles jovens de quase 60 anos, muito mais jovens que eu, de braços cruzados lá em baixo.

A empolgação era grande. Percebi a vontade de cantar e tocar e a sinergia entre eles. Já conhecia um pouco do trabalho do Guarabyra, das crônicas que lemos todas as semanas neste mesmo espaço. Ele escreve maravilhosamente e também me inspirou. Zé Rodrix, sentado no meio do palco, dedilhou o teclado, cantou, mostrou um artista “sem vergonha de ser feliz” e um vovô que eu gostaria de ser. E o Sá. Que alegria, que energia, que maravilha!

Como o show atrasou, deixei avisado que não poderia ficar até o final; tinha outros compromissos. Fiquei até o último minuto possível para ver os detalhes, a criatividade, a ousadia daqueles artistas que me provaram o que eu já sabia: o espírito hippie não morreu. Não era apenas o baterista, um dos melhores do Brasil, e nem a banda toda que transformaram o show. O espetáculo foi especial com a voz única do trio, pela arte de cada nota. Fui surpreendida como muitas vezes não fui.

Essa realidade foi boa e começou a parte dos pensamentos. Pela segunda vez na vida senti a mesma vontade: ser amiga, sentar e bater um papo com os artistas, fazer parte da rotina deles. Logo percebi, se estivéssemos há 20 e poucos anos, eu não estaria timidamente de braços cruzados, mas sim, rodando, pulando e dentro do transe da década de 60. O trio fez sentir-me transportada pela música. Uma viagem.

Voltando à realidade e fora do show, vi uma família com três filhos pequenos almoçando numa das únicas opções do lugar. Sei que fui indelicada, mas contei que a família, em pastéis de R$ 0,50, gastou exatos R$ 4 no almoço do sábado. Fui embora, e logo vi um assalto. Desejei que nenhuma bala perdida alcançasse ninguém, especialmente do trio. Eu ainda teria de encontrar com eles uma vez na vida. E quem sabe contribuir com algo, em troca de experiências.

E foi assim, me vi sentada rindo muito, e lembrando do Sá rebolando ao tocar o violão no palco. Foram tantas as coisas que aprendi. A música é boa, as pessoas são boas, a arte é tocante e o toque é suave e instigador. Sei que o espírito hippie está em cada um, em busca da liberdade, muitos exilados. O importante é que mesmo não lembrados por muita gente, eles ainda tocam para a nova geração. Não sei se aprendi com os pensamentos ou com o show. Mas sei que descruzei os braços para abraçar aquele mundo.

* Crônica publicada no Jornal ABC Repórter, em 16 de junho de 2006.

http://www.jornalabcreporter.com.br/social.php?subaction=showfull&id=1150469586&archive=&start_from=&ucat=4&

Poeta Vane Kolyn
Enviado por Poeta Vane Kolyn em 21/06/2006
Reeditado em 22/06/2006
Código do texto: T179426
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Sobre a autora
Poeta Vane Kolyn
Santo André - São Paulo - Brasil, 32 anos
34 textos (1788 leituras)
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