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VERBORRÉIA

(Texto publicado no jornal Brasil Norte (Boa Vista, RR) e no sítio Fontebrasil.com.br (Brasília, DF)
 
Joaquim Manoel da Silva é um cearense típico. Nascido na Serra de Baturité, pouco mais de um metro e meio de altura, pele avermelhada pelo sol, cabeça chata, longas entradas nos cabelos baixos e encaracolados, olhos verdes e brilhantes como duas esmeraldas, rechonchudo, barriga proeminente e ar maroto estampado na face como se um filete de sorriso estivesse sempre ali irrompendo, ele, depois de ter trabalhado como quibeiro, picolezeiro, engraxate, ajudante de camelô, empacotador de supermercado, balconista e até caraxué(1), dedicou-se à mecânica automotiva.

Nezico – seu nome de guerra - é um bom profissional. Iniciou-se no ofício dos motores a explosão na marra: começou de baixo, como faxineiro. Empreendedor que é, foi galgando postos – ferramentista, almoxarife, auxiliar de mecânico - até que um dia conseguiu estabelecer seu próprio negócio. Muito caprichoso e dedicado fez de sua pequena oficina uma agradável casa de reparos. Apesar de simples e com poucos equipamentos, faz gosto entrar no amplo, singelo e arejado galpão da Oficina Mecânica O Rei do Gatilho: piso de barro batido sempre limpo, os três funcionários em seus elegantes macacões de brim azul, equipamentos dispostos de maneira lógica e, lá no fundo, um escritório onde se destacam um arquivo em aço com quatro gavetas, uma máquina de escrever manual Olivetti Linea 88 e uma calculadora mecânica Divisuma 24. Sobre bem cuidada mesa de madeira entalhada está o orgulho do proprietário: um computador Pentium 233 (ou seria um Lentium?) com impressora matricial Rima XT-180.

Autodidata nos mistérios dos motores, Nezico, longe de se acomodar, dedica boa parte de seu tempo à procura de especializações: fez diversos cursos no SENAI e SEBRAE, cujos certificados emoldurados ornamentam as paredes do escritório. Entre os certificados, destaca-se uma foto da Praia do Cumbuco em Fortaleza: paixão de nosso empresário.

Nezico tem um sonho: tornar-se advogado. Determinado que é, acho que um dia atingirá seu objetivo. Atualmente dedica-se às aulas da Escola para Jovens e Adultos –EJA: primeira etapa nesta obsessão.

Pensando ser um dia um grande causídico, Nezico ao falar incorpora e, na empolgação, cria belas, estranhas e jamais ouvidas frases. Ele, sem pensar nos interlocutores, abusa da verborragia.

Um dia meu carro pregou subitamente. Solicitei um guincho e instruí seu condutor para que o levássemos ao Rei do Gatilho. Com prancheta e caneta nas mãos, Nezico preencheu todos os dados do carro e do proprietário. Pediu-me que voltasse mais tarde para o diagnóstico e orçamento. Ao procurá-lo, algumas horas depois, fui conduzido ao escritório onde ouvi o seguinte:

- Doutor, numa prévia avaliação remota..., assim, de primeira estrância..., supositoriamente houve uma ruptura das biela com supra aquecimento do bloco e umas afissura nos cabeçote devido as gastura nos impacto prolongado das avaria. O sincronizador de polistática desencrimpou da arruela basculante e o tornedor piloto tem que ser embustado. Aqui está a relação das peça a serem trocada. A mão de obra, se não surgir nôvos subterfúgio mirabolante, fica aí na faixa etária de uns 300 real."
e-mail: zepinheiro1@ibest.com.br

(1) Caraxué – moleque de recados em casas de tolerância (ou de intolerâncias?)

e-mail: zepinheiro1@ibest.com.br
Aroldo Pinheiro
Enviado por Aroldo Pinheiro em 21/06/2006
Código do texto: T179487
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Sobre o autor
Aroldo Pinheiro
Boa Vista - Roraima - Brasil, 62 anos
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Aroldo Pinheiro