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“A carne seca é servida”

Formigão era da roça, cresceu na cidade, deu dor de cabeça a muitos policiais. É fruto da falta de “inseticida social” em nossa sociedade – não a que preserva o príncipe do mal uso do erário público, mas a que aniquila o princípio desse mal.

A mãe vendia o corpo; fingia gozo para cuidar do filho. Formigão, envergonhado, fugiu de casa; foi desfolhar bandeiras em outros quintais. A "metamorfose ambulante" da história comum de muitos “deliquentes de rua".

Dia desses,  deparei-me com o dito cujo. Igual formiga: inquieto, antenado... Foi logo me chamando de “chegado" – talvez insinuando semelhança pelo meu jeito de ser:

"Me quebra um galho aí, doido; um real pro bagulho. A gente queima junto." – Direto no assunto; não me fiz de rogado, nem de desentendido.

Não que eu seja a favor dessa fuga passageira, mas não disse não ao seu pedido. Afinal, sem apologia e preconceitos aos deuses do fumo, somos todos “chegados” da busca de momentos que nos dêem inspirações espirituais: e alguns querem acreditar que esse é um dos meios.

Não pude desperdiçar a oportunidade de ver mais próximo tal procedimento. Acompanhei Formigão na sua "via crucis" matinal. Naquele dia, senti de perto o aroma conhecido das folhinhas da mata que infesta o centro das cidades.

Formigão sugou, prendeu, exalou... A mesma rotina de “Bad-boys” no alto dos edifícios; dos doutores encurralados entre o diploma universitário e as grades do sistema; dos intelectuais desvirginando a bruxa da inspiração na noite enluarada; dos índios civilizados pela consciência do pecado... Claro, sem generalizar!

Fizemos uma viagem conversativa,  em meio à miséria urbana; o mesmo gueto onde sua mãe “fungava” com bêbados de sexo etílico. Formigão viajando na sua espiral de sonhos lunáticos; eu observando tudo, na carretice da nave dos anjos tortos – Anjos não fumam!?

"Quem não se arrisca, não pode berrar." Alguém filosofa em meio à fumaça; o efeito da "canabis" despertando a mente – Preferi continuar sem arriscar; leigo na minha filosofia de vida careta e cafona.

No dia seguinte, Formigão começou a trabalhar. Conseguimos vaga com um dono de carrinhos de vender espetinhos no centro da cidade; durante uma semana, fui seu companheiro nessa "queimada" diferente. Um trabalho que espeta a alma enquanto o corpo queima nos preconceitos sociais.

Já se vão dois meses. Formigão comprou bicicleta, arranjou uma "mina"; trocou vestes esfarrapadas de alma maltrapilha pela esperança de uma sobrevivência mais digna. Vai pedalando entre as faltas de oportunidade na vida.

Agora, sempre que vou ao centro da cidade, tenho direito a “espetinho” de graça. Formigão continua nas suas viagens: uma mistura de odor do cachimbo da paz com cheiro de carne assada.

E os urubus engravatados ficam "urubuservando" dos telhados enquanto "A carne seca é servida."

Até mais ler, pelas faltas de oportunidade na vida!



Kal Angelus
Enviado por Kal Angelus em 22/06/2006
Reeditado em 22/06/2006
Código do texto: T180494
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Sobre o autor
Kal Angelus
Teresina - Piauí - Brasil
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