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Desesquecimentos* **

Foi uma frase o maior susto que eu tomei. Eu andava borocoxô quando uma amiga, que tinha esquecido como se dizia “afe, ainda é por isso?!”, disse: “Cris, tu é tu inteira”.  Eu nem sabia disso; eu pensava eu ser eu e quem me entristecia.

Claro que minha amiga usou essa frase como força de expressão pra me ajudar a respirar naquele momento. Hoje eu sei que eu não sou eu inteira. Eu inteira sou eu, meus CDs, meus livros, minhas crônicas, meus pais, meus irmãos, minhas avós, a saudade do vovô, meus primos, meus tios, a Carol, a Wânia, o Paulo, a Cris, o Ronaldo, o Daniel, o Eduardo, o Felipe, o Manoel de Barros, o Benfica, as Carnaúbas, as tardes na Pitombeira, as árvores do Zé do Mangue, as mesas nas calçadas, caminhadas na praia, meu próprio carma, e outras muitas coisas e pessoas.

É quase nunca que esqueço dessas frases que mexem comigo. Por exemplo, uma vez eu não esqueci quando li “lugar sem comportamento é o coração, ando em vias de ser compartilhado”, que foi quando eu me apaixonei por um monte de coisas e pessoas. Também não esqueci quando li “eu sou culpado de mim”, que foi quando eu criei um senso de responsabilidade; nem esqueci “eu sou muitas pessoas destroçadas”, que foi quando desaprendi eu ser eu inteira.

Pela minha cabeça, esses dias, anda uma frase que é esta: “você é a melhor coisa que eu sinto”. Eu acredito que quem a inventou fui eu. Esqueci-me se li em algum livro, e também acho muito simplória pra ter sido inventada por alguém além de mim. Mas, mesmo ela sendo minha, eu nem disse pra ninguém. Bem que existe pra quem, mas é inapropriado.

Num desses dias, uma amiga inventou um conceito. Nós duas estávamos borocoxôs, e não podíamos dizer “afe, ainda é por isso?!” porque a gente sabe que esse dizer serve pra distanciamento, e a gente não queria. Foi então que eu dei em falar que a gente precisava era conseguir respirar fundo pra combater o encurtamento na respiração causado pelo entristecimento. Minha amiga ficou feliz quando voltou a respirar fundo naturalmente, ela até me ligou contando: “Cris, Cris! Ser feliz é respirar fundo”. Dessa frase eu também nem esqueço.

* As frases do terceiro parágrafo são todas do livro do Manoel de Barros, do das ignorãças.

** publicada no site patio.com.br/cronica
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 23/06/2006
Código do texto: T180857
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro