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          Meu doce esconderijo

   A maior parte do dia e boa parte da noite, passo no meu gabinete, pendurado no quinto andar do prédio onde moro, pertinho da praia. 
    Da minha mesa de trabalho eu vejo o sol, a lua, as estrelas e o mar. Isso me ajuda a devanear.
     No silêncio do meu gabinete eu estudo; ouço música; leio; e escrevo algumas bobagens. Mergulho em livros, sons e sonhos; curto meu passado; e sinto minhas saudades...
    Até pouco tempo, nele reinava a mais completa e constrangedora bagunça. Eu precisava de boas estantes, mas não tinha grana para comprá-las, o que só recentemente foi possível. 
    A alegada bagunça nunca me perturbou. 
    Estivesse eu em Fortaleza, em Santorini, ou em Adis-Abeba, sabia dizer, com precisão, onde este ou aquele livro podia ser encontrado.
    Agora, com tudo arrumadinho, é possível ver Manuel Bandeira ao lado de Olavo Bilac, de Catulo da Paixão Cearense, de Castro Alves, de Olegário Mariano, de Juvenal Galenho e de Bastos Tigre.
    Drummond ao lado de Rubem Braga, de Antônio Maria, de Oto Lara Rezende, de Joel Silveira, de Vinicius de Moraes, de Nelson Rodrigues, de Cecília Meireles, de Julieta Drummond e de Clarice Lispecto.
    Na mesma prateleira, Fernando Sabino, Carlos Heitor Cony, Affonso Romano de Sant´Anna, Artur da Távola e meu amigo João Ubaldo Ribeiro. 
    E nouta, Vilma Guimarães, Ana Miranda, Lygia Fagundes Teles, Josué Montello, Jorge Amado, Rubem Alves e Hemingway.
    Em um lugar determinado, botei Graciliano Ramos, Gustavo Barroso, José de Alencar, Tristão de Athayde, Agripino Grieco, Câmara Cascudo, Ruy Barbosa, Afrânio Peixoto, Artur Azevedo e Leonardo Mota.
    Reservei para Machado de Assis, Humberto de Campos e Rachel de Queiroz a melhor estante. A estes três escritores, eu volto sempre. 
   Livros religiosos? Também os tenho. E por que não?  Neste velho escriba ainda permanece algo muito sólido do seminarista que fui, com longa e proveitosa passagem pelos claustros franciscanos.
    Tenho biografias de santos; a história dos papas; os Sermões de Vieira; A Bíblia Canônica e a Apócrifa; o Evangelho de Allan Kardec; e a vida de Jesus contada por Ernest Renan, Norman Mailler, Herberto Sales, Fernando Sabino, Giovanni Papini e pelo integralista Plínio Salgado.
    Guardo, com ostensivo carinho, os livros sobre São Francisco de Assis, com quem mantenho, desde criança, uma saudável e alentadora amizade.
    E o som? Tenho CDs para todos os ouvidos.
    São quase trezentos. Ouço Orlando Sílva, Sílvio Caldas, Elizeth, Fafá de Belém, Angela Maria, Dolores, Betânia, Elba, Fagner Roberto, Dalva de Oliveira, Luiz Gonzaga, Net King Cole, Doris Day, Nana Mouskouri, Bach, Bethowen e Mozart. 
   Em noites de insônia, ouço música Gregoriana. 
   Sobre minhas estantes, e pelas paredes do meu gabinete, espalhei porta-retratos e quadros com fotos de Ivone, irretocável companheira; de Paulinho e Adriano, meus filhos; de Catarina, Davi e Bernardo, meus netinhos; de Lia Márcia e Juliana, minhas noras.  
   Foi a maneira que encontrei de tê-los, todas as horas, ao alcance dos meus olhos.
    No armário da saudade, velhos álbuns guardam retratos, em preto e branco, de Raul, meu pai, e de Maria Luiza, minha mãe, já falecidos; e ainda fotos de parentes vivos e de parentes mortos. São a minhas raízes.

   Este, meu amado leitor, é o meu gabinete de trabalho. Simples, mas acolhedor.
   Tem até um escocês legítimo para os amigos. 
   Costumo chamá-lo de meu doce esconderijo. 
   Se não for do seu interesse conhecê-lo, esqueça-o, para sempre.

 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 23/06/2006
Reeditado em 23/08/2013
Código do texto: T181053
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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