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Era noite de São João

Era noite de São João, uma noite fria de 1968. Estavam os dois homens na sala: o policial militar, conservador e católico Nery, o pai, e o agente penitenciário, pragmático-conservador e umbandista Glênio, o cunhado. Cunhado emprestado, pois era casado com a professora, apolítica e umbandista Dione, a irmã da professora, apolítica e umbandista Ivone, a mãe da criança que estava por nascer, o João, ainda, lógico, sem profissão e opção política e religiosa.
Num dos quartos estava a empregada doméstica Madelena, cuidando das crianças: Maria Emília, filha de Ivone e Nery, irmã do futuro João; Patrícia, filha da Dione e do Glênio, prima do futuro João; Alemão, filho da Madalena. Todos sem profissão e opção política e religiosa.
No outro quarto, a parteira Dona Gessi, uma amiga, Ida, a Dione, a Ivone e o João querendo nascer. Ah, tinha também a Paula, que estava se formando no ventre da Dione, que ainda nem sabia disso. Paula só nasceria no final de fevereiro do ano seguinte. Desses todos, fora a Dione e a Ivone, ou não tinham ou não se sabe as profissões e opções políticas e religiosas.
Todos esses, naquela noite de São João, foram testemunhas do nascimento do João. Estavam ali, unidos pelo destino, pelas suas escolhas de vida, pelos seus sentimentos, pelas suas nescessidades.
Nery esperava o filho nascer. Claro, se fosse homem, pois naquele tempo não havia ecografia, só palpite. O palpite de Nery era que, dessa vez, Deus lhe daria um macho, para "Levar o nome dos Guerreiro pra frente". Nery queria colocar o nome de seu pai no filho, João. Ivone não queria, desejava outro nome, talvez Leandro. Então o combinado: se ele nascesse até o dia 24, seria João, se viesse ao mundo depois de 24, seria Ivone quem escolheria o nome.
Eram 22h55min e Dione abre a porta: "Nasceu! É um macho!"
Nery sorri e diz: "Ainda estamos no dia 24. Vai ter o nome do meu pai". Por 65 minutos não estava nascendo o Leandro!
Passaram-se 38 anos daquela noite fria do inverno gaúcho em Charqueadas. Agora é a festa de aniversário do João, funcionário público, esquerda e kardecista. A noite está inacreditavelmente quente, com neblina e estrelada. A casa agora é a de Maria Emília, que tornou-se professora, advogada, esquerda e católica, está casada e tem três filhos. Aliás, João e Maria Emília ficam com a mesma idade até 18 de agosto. Isso, Nery estava ansioso por ter um filho homem e nem esperou muito. São dez meses e uns dias de diferença!
Nery e Ivone, hoje kardecista, estão na casa. Dione, igualmente neo-kardecista, também. Os outros não.
Glênio foi embora para outra cidade e da vida de Dione. Ida não se sabe. Gessi já faleceu. Madalena casou e teve outra filha, descasou, casou com um velho polonês que vivia na França e que veio para o Brasil com a Segunda Guerra, foi morar em São Jerônimo e João passava uma semana por ano na casa dela e encantava-se com o mau humor e com as infindáveis histórias e opiniões do franco-polonês, que morreu e, então, Madalena foi embora para outro Estado, morar com o filho Alemão. Patrícia e Paula estão em Charqueadas, mas não puderam vir. Estão casadas e com filhos. São professoras, católicas, esquerda e gostam de política. Uma é presidente de sindicato e a outra vice-prefeita.
Novidade nesta noite de São João são a professora, psicóloga, esquerda e católica Rosi, esposa de João, e Joana, sua filha, além da sogra dona de casa, apolítica e evangélica Eva Maria. Também o metalúrgico, esquerda e católico Gilmar, cunhado de João, e os sobrinhos Vinícius, Matheus e Thiago, sem profissão e opção política e religiosa.
A vida é assim, algumas coisas mudam e outras ficam como estão, o novo vindo enquanto o velho vai indo.
Nery chegou a conclusão que o nome dos Guerreiro não vai ir muito longe, pois Joana é mulher e os filhos de Maria Emília são Oliveira. Não simpatiza muito com a opção política dos filhos, mas já não briga com eles por isso. Nem tudo na vida é como a gente quer ou planeja, o importante é o amor e a união da família. Meno male que João, Joana, Gilmar, Vinícius e Thiago são Grêmio.
Ivone simpatiza com a opção política dos filhos e ainda preferia que João fosse Leandro e torcedor do Internacional, como Maria Emília, Matheus, Dione, Glênio, Paula e Patrícia.
Por ironia do destino, João tem que explicar sempre para as pessoas que o seu nome é João não porque nasceu numa noite de São João, mas indiretamente, devido a aposta entre os pais e, diretamente, devido ao nome do avô paterno. Então vem a outra pergunta: "Ah, mas Joana é porque você é João." Não, é por causa do Padre João Reus, de quem a católica Rosi gosta muito. Na vida, nem tudo é o que parece, embora muitas vezes hajam muitas evidências de que seja.
Era noite de São João.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 24/06/2006
Reeditado em 08/07/2006
Código do texto: T181829
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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 48 anos
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João Adolfo Guerreiro

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