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UMA LONGA PEQUENA VIAGEM

Terezinha Pereira

Certa vez, saí de Pará de Minas, às seis da manhã,  com destino a  Divinópolis. Nesse dia,  poucos passageiros embarcaram na rodoviária. A primeira parada do ônibus ocorreu num ponto dentro da cidade. Entrou uma senhora com três crianças pequenas, dois arrastados pela mão,  o menor agarrado no peito e  um bocado de sacolas. Até se acomodarem, mulher , crianças e sacolas depois de  o trocador ajudar o menino maior que havia tropeçado na própria sacola a se levantar do chão, levou  algum tempo.
_ Tem as passagens, minha senhora? – indagou  o trocador.
_ Tenho não. Pago agora.
_ São sete reais.
_ Quê  que é isso moço? Duas passagens não. Levo só criança de colo. Vem Vandeir, Valdirene. Senta aqui com a mãe. A gente pode pagar só uma passagem, moço.
_ Vou não, mãe. O Vanderlei já tá no colo. Gosto de ficar perto da janela _ diz o garoto.
_ Vem seus malcriado. Todos três  no meu colo.
_ Minha senhora, como vai colocar três crianças num colo só? Vão acabar batendo a cabeça no banco da frente. Estou lhe cobrando apenas duas passagens para quatro pessoas.
_ Diacho. Toma lá, seu ladrão de uma figa. Num vê  que é só três  menino pequeno?
Parada. Entra um homem com um balaio. Pastel_ penso. Percorre o corredor esbarrando o balaio nos passageiros. Mais uma parada. Dessa vez é um senhor idoso , cigarro de palha preso na orelha, debaixo do braço uma galinha enrolada numa fralda branca. Senta-se. Ajeita a galinha na  fralda. Coça  a cabeça dela com carinho, parecendo lhe cochichar alguma coisa. Acende o cigarro, sem se importar com o cheiro que exala do fumo de rolo. Apesar do aviso “proibido fumar cachimbo, charuto e cigarro de palha” , ninguém o incomoda. Outra parada. Entra uma dúzia de  rapazes brincalhões de entre quinze a dezoito anos de idade, marmita amarrada num guardanapo, botinas sujas de terra. Ocupam o restante de lugares vagos. O trocador nem terminara de receber o dinheiro dos rapazes, ouve-se o sinal de parada. Era a mulher das três crianças que queria descer.
_ Valdirene, Vandeir, tá na hora de apiá. Toma Valdirene, leva  os saco. Segura a chupeta do Vanderlei pra num sumi.
Por motivos alheios à vontade dos passageiros, os ônibus de Pará a Divinópolis, em alguns horários, vão por um caminho um pouco mais curto, mas com um trecho de terra. Nem vi onde foram a mulher e suas crianças, tanta a poeira no caminho.
Outra parada. Entraram:  galinhas, gaiola de periquitos, alçapão com dois coelhos brancos, sacos de milho, sacos de polvilho, ovos, bananas, laranjas, alguns objetos não identificados e gente. Sem considerar o que foi colocado no maleiro externo e não pude identificar. Iriam para algum feira?
Meu estômago estava embrulhando por causa do cheiro do cigarro de palha e que saía do balaio do vizinho da frente, que devia  ser de pastel, daqueles fritos em óleo de uma semana.  De olhos fechados, entre  sacolejos, poeira e  paradas, ouvia a conversa dos passageiros .
_  A Rita tá indo hoje pra cidade. Já começou a sinti.
_ Terá  adiantado, cumade Cetonha?
_ Pode sê.  É o primeiro. O primeiro costuma adiantá. Inda mais,  diz que é minino home.
_ E a mãe? Cumé é que tá?
_ A  minha? Tá boa. Passô um susto nim nóis onte. Estrepô o pé no terreiro da cumade Zinha. Espinho de laranjera. Dos grande, sá. Uma sanguera! Branquejou a cara na hora. Suou frio pro pai tirá o espinho fincado no pé dela.  O pai até chamô a Sá Remunda prá benzê.
_ Chiii! Tem um tempão que num vejo a Sá Remunda.
_ Fala não. Tá passando um trabaião. A Marinês , fia mais nova dela, cascô fora pra cidade com um home casado. A Sá Remunda só faz chorá. Tem treis mês que a fia se foi e nem dá notíça.
_ Vi falá, cumade Cetonha. O peste é o marido da Olímpia, fia do Mané da Cerâmica. Diz que o Mané da Cerâmica  até já comprô uma garrucha. Qué pegar o desinfeliz do genro.
_ Pudera. O home deixô a Olímpia com uma perrada por mode de morá com a Marinês ! E o Mané, é home de guardá desaforo? Diz até que ele já matô um por causa de briga de vizinho.
O homem  do balaio que devia de ser de pastel frito no óleo guardado falava com um senhor:
            _  Vai dá um pulo na  idade hoje, Sô Libério?
_ Vou tratar de alguns negócios. E o comércio, Liquito, como é que vai?
_ Bão não, Sô Libério. Tenho que andá a manhã inteira. Tem buteco qui dispensa o trato. Em antes, eu fazia duas viagem por dia. Hoje tô fazeno uma só. Tá indo onde?
_ Vou aproveitar pra visitar o compadre Joaquim. Ele enviuvou.
_ Divera? Quando é que foi?
_ Ontem foi o sétimo dia. Não falando da desgraça da morte da mulher, o Joaquim vai ficar bem de vida. Dá conta de tocar a três fazendas sozinho. Mulher mais espevitada  era aquela dele. Porque herdou as fazendas do pai pensava que podia tomar todas as iniciativas. O compadre não podia vender nem uma rês sem pedir bênção pra mulher.
_ Trem esquisito, seu Libério. Muié nova, sacudidona. Num carece batê as botas assim à toa.
_ Doença ruim, Liquito. Está pegando qualquer um. Olha idade não.
_ É. Pode sê.
  Uma senhora de voz suave, falava com um garoto:
_ Está viajando sozinho?
_ Tô sozinho não dona. Meu pai é aquele que tá lá atrás segurano uma lata de leite. Vamo também com os dois periquito. Vamo  vendê ês na cidade.
_ Já têm comprador?
_ Temo sim dona. Tem um moço lá em Divinóplis que compra tudo de nóis. É dono de  uma loja de vendê passarinho, gaiola, ninho, ração. Essas coisa tudo de passarinho. Ah, vende pexe também. Desses de pô no vidro dentro de casa.
_ Que gracinha dos periquitos. Ficam sempre assim juntinhos?
_ Fica namorano.
_ Parecem gente.
_ Parece gente não dona. Ês fica sempre juntinho, mesmo depois de casado, quando já tem  fiote. Num caça  briga de jeito manera.
Pela movimentação de pessoas mexendo  nas bagagens, notei que estávamos chegando  a Divinópolis. Abri os olhos. Para minha surpresa, o ônibus estava parando na rodoviária nova, que havia ficado fechada durante muitos anos  após sua construção, devido a algumas ameaças de desabamento _ coisa feita com dinheiro público, à vezes, apresentam uns ligeiros problemas de estrutura. Foi quando senti uma umidade nos pés. Olhei para o chão e vi que escorria pelo chão do ônibus, um líquido branco, que devia de ter  saído da lata que o pai do menino dos periquitos levava.
Quanto à viagem de volta? Nem conto.
Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 20/05/2005
Código do texto: T18205
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Sobre a autora
Terezinha Pereira
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
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