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Na esfera de ilusões

Ela vem veloz, cabisbaixa. Desliza ao meu encontro, ignorando o verde à sua frente;  como nos meus sonhos de menino: rastejando, confusa à minha visão. Por um instante, todo um resumo de vida. Sinto medo, temendo não a tê-la;  a angústia dos realizados, tementes à extensão de suas conquistas.

Por todo lado, murmúrios ensurdecedores. Testemunhas encantadas ante a sua performance de fêmea se entregando aos anseios de homens. Olhares fixos no seu trajeto ao meu encontro. Nesse momento, toda lembrança de uma vida de miséria rodopiando no seu epicentro. O passado,  segregado, há muito tempo esquecido; dor e desespero transformados em conquistas.

Revejo esqueléticas pernas de meninos pobres na busca de fuga das misérias; a angústia da fome corroendo vidas.  E Ela está lá, sempre presente; compartilhando dores e sonhos! Mostrando-nos que esperança nunca morre; jamais. Que as portas de um mundo melhor, através d'Ela, podem ser abertas àqueles que a amaram na infância;  mesmo sabendo que poucos sobrevivem. Sua presença sempre marcante em nossos sonhos: entregando-se, amenizando dores, recriando esperanças... Abraçada, desprezada - machucada pelos menos amorosos.

- “Bando de vadios; vão procurar o que fazer...”  - O bordão do desprezo; preconceitos ferindo almas. Como se sonhos fossem estigmatizados pela elitizãção

A ignorância gerando momentos de desilusão. A vontade de não mais correr, de não mais querê-la em toda sua grandeza. Esquecê-La e admitir que frutos da periferia não sonham;  que, simplesmente, tornam-se fantoches consumidores dos interesses escusos de políticos, pastores, midiáticos... frutos perdidos em meio às suas próprias misérias: pobre contra pobre, negro contra negro, ruínas contra ruínas.... Mas Ela sempre presente; encorajando-nos à luta. Esperando pasciente em cada esquina, viva no sorriso solto de cada criança.
 
Agora, cá estou; esperando-a. Vem ao meu encontro, ao meu abraço; tenta me dissimular com o encanto do seu vôo. A dicotomia da nossa curta  existência; querer e fuga,  abraço e refugo, amor e ódio.... Tenho que abraçá-la, senti-la parte de mim. Agradecer-lhe por todo o brilho das conquistas em minha vida: luxo, riqueza, prestígios, mulheres, aplausos, reconhecimento dos antes preconceituosos... Uma multidão, de pé, aplaudindo esse momento sublime!

Então, o inesperado.Ela se nega ao meu anseio; ignora meus braços estendidos - faz a alegria dos outros. Esnoba-me diante de todos, passa indiferente e descansa atrás do meu semblante desconsolado. Agarro-a, sinto na sua esfera de ilusões a magia das transformações: tristeza e alegria em um mesmo quadro!

- “Acorda, cara; parece que tá sonhando. Presta atenção no jogo” - A realidade chutando meus sonhos!

Uma pausa para o instante de lucidez àqueles que não conseguem quebrar a  barreira do sonhar. Olho de lado, vislumbro a placa escrita com giz, amarrada ao poste na lateral do campo:

Campeonato Social Urbano:
Jockey Club: 5 X Vila Maria Luiza: 0

Saio  do ópio infantil e me dou conta que sou goleiro do time perdedor. Um punhado de gatos pingados comemora o gol enquanto a bola é levada novamente para reinício da partida – igual ao jogo da  vida!

Até mais ler, pelas nossas ilusões cotidianas!





Kal Angelus
Enviado por Kal Angelus em 26/06/2006
Reeditado em 27/06/2006
Código do texto: T182673
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Sobre o autor
Kal Angelus
Teresina - Piauí - Brasil
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