Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Relacionamento

Quando ele me perguntou se eu conseguiria imaginar nosso relacionamento como um namoro sério, me vi numa cilada de palavras tentando nada dizer dizendo sem transparecer. Procurei dizer algo tipo “o futuro...” e o “destino...” mas desisti a tempo porque entendo que seria meio romântico e, apesar da pergunta indiscreta que recebi, começo de rola-rola-fica-encontra-namora não é íntimo a ponto de me deixar ver como uma romântica apaixonada inveterada. Não. Tentei um “o que você acha” mas sei que ele poderia usar um “eu perguntei primeiro” e dei a observa-lo por detrás dos óculos escuros tentando enxergar algum sarcasmo, o que seria a minha salvação. Mas eu também estava de óculos e não pude ver nada além do rosto à luz do sol da serra com aquela boca e... Bom, não pude ver. Imaginei um “não quero nada sério” sem convicção, mas também sei que homens (até os lindos) não sabem ler entrelinhas e jamais descobririam a diferença entre dizer e querer dizer.

- Ok. Não precisa responder agora.

Dia seguinte. Aniversário do meu filho. Pizzaria cheia de crianças, barulho, correria, adultos, brinquedos e, é claro, pizza. Cada pedaço de pizza tinha 2 quilos a mais e a mesma dúvida na cabeça. O que responder?

As crianças estavam ótimas. Todas suadas, melecadas, agitadas, barulhentas e chatinhas, como sempre. E criativas. E diretas. E honestas. Conversando com uma delas:

- Dani. Me responde uma coisa. De onde vem os bebês?
- Do umbigo, uai!
- Ah? Do umbigo?
- É.

Criança tem uma maneira muito simplista de ver a vida. Não enrolam, não fazem cena. Não fazem confusão com as palavras que dizem sem dizer ou qualquer coisa mais ou menos assim.

- Mas como a criança vai parar no umbigo?
- Ai, ai, ai... Você não sabe?
- ?
- Vou explicar. É assim ó – mostrando com o dedinho – o pai desembrulha o umbigo da mãe e coloca uma sementinha dentro. Aí depois ele dá um nó de novo e embrulha pra dentro. Aí o bebê cresce!

Quando me encontrei com ele, mais tarde, tentei, eu também, ser criativa, direta e honesta. Mas não sei se pegou muito bem porque acabei dizendo:

- Olha. Eu quero que você desembrulhe o meu umbigo muitas vezes, mas prefiro que você guarde suas sementes para um outro momento porque, por enquanto, eu prefiro um relacionamento sem melecas e sem mesadas.






Carol Bahasi
Enviado por Carol Bahasi em 27/06/2006
Código do texto: T183398
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Carol Bahasi
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
21 textos (7425 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 22:22)
Carol Bahasi