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As mil e uma facetas da "burrocracia" da vida

Bororó não tinha feições belas, mas sorria singelo, como se conhecesse caminhos menos indigestos à felicidade. Pouco falava sobre decepções. Era companhia certa na hora do meu lanche; lanche gratuito, altamente “desnutritivo” para o rojão da época – uma migalha de pão e meio copo de leite. Forçavam-nos assim à escravidão das guloseimas alternativas,  vendidas a preços de ouro.

- Esta vida é um enigma risonho; morremos nas mãos de algozes que passivamente aceitamos – Bororó concordava com a filosofia imberbe do meu inconformismo prematuro.

Referia-me ao lanche, e o comparava aos nossos chefes imediatos – uma mistura de pão mofento com leite aguado: ruim de engolir; mais triste ainda, aturá-los. A “burrocracia” do serviço publico vive apinhado desse tipo de gente, chamado de chefe; travestido de gerente, supervisor, coordenador...Louve-se as exceções!

Esses arquétipos de mesquinharia humana sempre me remetem às lembranças da  figura tirânica em “As Mil e Uma Noites” – Chahryar! Assim como a personagem, os chefes, após satisfazerem suas taras de hierarquia, tentam aniquilar seus subalternos via psique - procuram evitar concorrência, reativam a emulação ultrajante.  Bororó sabia disso e procurava leva-los no papo; contando histórias. Tentava, assim, salvar nossas cabeças. Agia como Chahrzad e iamos sobrevivendo na nossa conformação psicológica.

- Bororó, isso é pra hoje... Bororó, vê se faz isso mais depressa... Bororó, olha o tempo.... Porra, Bororó, tá tudo errado; faz outro...–  perseguição  implacável ante ao manuseio da velha máquina de escrever.

Ele sempre eficiente, mas devagar; conversando, soltando o verbo. Contando histórias de sua vida; como aquela do dia da posse. Vestiu terno novo –  direito a gravata borboleta -, chegou em frente ao prédio às seis da manhã – duas horas antes do expediente interno. Ficou caminhando de lá pra cá;  ansioso em prestar serviço à "burrocracia".

Cidade  pequena, pouca gente nas ruas. Espera impaciente pelo primeiro emprego. Emprego de gala: mães persignavam filhas com bordão conhecido: “Deus te dê um marido do Banco do Brasil...”

Cansado e com a paciência indígena já estrangulada, apelou ao guarda; este já desconfiado da sua presença ali em frente:

- Ei, amigo! Que horas abre o banco...?

- Hoje não tem expediente, moço; é feriado. Dia do aniversário da cidade...  Só na segunda. – Foi motivo de gozação durante dois anos, até sua transferência.

Nunca mais teve pressa na vida, nem no banco.

Costumava vê-lo como personagem de contos de fantasia.  Principalmente como aquela que nos remetem aos questionamentos existenciais e comportamentos humanos – igual aos de “As mil e uma noites”. Sua companhia era uma fuga do horror da rotina do banco: "puxasaquismo" e um bando de “bundões” intitulados chefes, correndo contra o tempo para satisfazer seus egos e diretrizes de um sistema  capitalista corrompido – nesse jogo de emulações ultrajadas, a culpa é sempre dos menores.

Naquela manhã, lavamos a alma. Jogávamos conversa fora enquanto “estragávamos” o desjejum bancário - ração rotineira. O tempo estourado em cinco minutos. A supervisora  entra com seu ar petulante de chefia, bate os olhos na mesa; eu, mastigando o pão de cada dia; Bororó, dando um  trato no cabelo de índio, regado a brilhantina. A mulher veio de arrastão, sorriso marroto de dona da verdade, soltando ladainha na nossa "enrolação":

-...Bororó, isso é feio; e você sabe que feiura dói? – A pergunta afirmativa rasgou o véu da manhã, lanchonete apinhada, olhares atentos...

Mais uma olhadinha nas feições, espelho e pente no bolso. A paciência do contador de histórias, a palavra pronta, brotando suave. Sem a face evasiva do político corrupto, do homem forjado em termos comedidos, do pastor loteando os céus, do chefe manobrado pelo sistema... - verbosidade simples, de homem comum, acostumado aos questionamentos difíceis nos Ágoras hodiernos:

- Não diga Dona.... Você tá sentindo alguma coisa? – O véu no chão; a gargalhada solta. Certeza de que a simplicidade ainda é o melhor remédio para nossas almas.

Transferência imediata, dois andares acima – entre grades do setor de almoxarifado, longe das pessoas decentes.

Fui junto!

Até mais ler, pelas "degolagem mental" das chefias da vida!

Kal Angelus
Enviado por Kal Angelus em 28/06/2006
Reeditado em 14/08/2006
Código do texto: T184154
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Sobre o autor
Kal Angelus
Teresina - Piauí - Brasil
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