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NO BEIJO DO AMOR AMIGO, A RESPOSTA

Mais de uma vez se perguntara o que exatamente buscava. O que era, na verdade, o que tanto desejava, o que resumia suas faltas. Não o sentido da vida, coisa por demais filosófica. Não. Algo mais simples, prático, concreto e que entretanto, por detrás do pote de ouro, revela-se o arco-íris oculto.
Passara por muitas histórias, com pessoas diferentes. Diferentes em tudo. E, ao fim e ao cabo, tão iguais. Todas. A todas faltava uma coisa. Não alguma coisa, mas a mesma coisa. Não sabia que coisa era, mas sabia que estava ausente em todas as histórias. Histórias. Não amores. Que estes, não os tivera. Não como achava que seria um amor.
A pergunta em algum momento cansou-se de perguntar. Havia coisas mais imediatas, havia a sobrevivência, havia o trabalho, os livros, as coisas que fazem parte da realidade. A pergunta era apenas mais uma pergunta. E se calaria tão pronto desistisse de ser feita. E convenceu-se também que o amor era assim um parente próximo da pergunta. Abstração de alguns. Distração de outros. Não tinha tempo para abstrações e distrações haveriam outras.
Foi virando outras de suas páginas e deixou que um capítulo acontecesse quase em branco. Sem emoções, sem sobressaltos, sem imprevistos ou surpresas. Seguro. Tranqüilo. Morno. E vez por outra a pergunta voltava com a força de um interrogatório. E ela então pensava que melhor que fosse frio, gelado ou quente, fervendo. Mas morno? Morno não suportaria mais...É verdade que vivera assim por longo tempo, mas agora...A pergunta incomodava.
Ter conhecido apenas histórias, não amores, não ajudava em nada. Não sabia como poderia ser. Se visse um amor passando, certamente não poderia dizer com toda a certeza:
- Vejam só: ali vai um amor de sonhos todo forrado em nuvens de algodão!
Ou ainda:
- Lá se vai todo serelepe aquele amor de pica. Dizem que este quando bate fica...Melhor não bulir com ele.
Não saberia o que era um amor ainda que lhe caísse um sobre a cabeça. Ainda que lhe arrebentasse todo o resto de juízo. Até o dia em que lhe caiu um, não sobre a cabeça, mas bem na frente do nariz e cortando a visão adiante. Postou-se diante dela e deixou claro e sonoro que não sairia sem ela. Ela seguiu aquele que lhe pareceu ter cara de amor. Como fervesse e sacudisse tudo em volta, pareceu-lhe boa medida. Não seria mais morno. E ferver era melhor que gelar, pensando bem.
O problema é que fervia por todo o lado.  Por certo tempo tanta fervura era até engraçado. O diabo é que depois não tinha água que desse jeito nos muitos incêndios. Nem água benta. Nem todas as rezas, velas, terços, apelos. Aquele amor não incendiava-lhe apenas a cama, que é lugar bom pra fogueiras. Incendiava todos os cômodos da casa. Metera fogo em tudo: na sua tranqüilidade, na sua paciência e, principalmente, na sua vontade de amar. E com isso já não acendia mais fogueiras na cama. O incêndio daquele amor estranhamente a havia transformado numa geleira. E a pergunta continuava. Porque aquele amor incendiário, surpreendentemente não trouxera a resposta. E ela sabia que não, porque a pergunta insistia.
Em meio a incêndios, casa em ruínas, cacos por todo lado, não havia mais tempo para abstrações. Distraiu-se. Deixou uma janela aberta. E viu passar, meio em câmera lenta, um amor do tipo tranqüilo. Não morno, entenda. Sereno, amigo e cheio de afinidades. E disse para si que aquele amor era um amigo. Mas o amor amigo não tinha apenas passado diante de sua janela aberta. Havia entrado, balançado as cortinas e se instalado calma e quietamente naquele lugar onde morava a pergunta. E a pergunta parecia começar a ser respondida.
- Decididamente, não. Não há mais tempo pra abstrações e isto também não se presta a distrações. Que siga a afinidade e que os olhos da alma não vejam senão o que a razão permita.
Sentia-se melhor pensando assim. Mas a pergunta estava virando resposta. Feito água de inundação. Vai chegando rápida, mas silenciosa. E toma conta.
Um beijo. Não um beijo que invade, enfia a língua e revira a boca e os dentes. Não. Que este amor não vinha fazer vendaval, quebrar tudo e ir-se embora a beijar em outra freguesia. Um beijo leve, quase um toque apenas.
E a resposta precisa: algo que calasse a mente. Um encanto, um momento. O instante preciso e claro. O ajuste perfeito do corpo sem o toque. Que a consumia e destruía todos os escombros e limpava o terreno. Que calando a boca, selava-lhe o corpo e a fazia entender a falta, a ausência e a renúncia.  Que renunciando, enveredava por todos os cantos da fantasia, do encantamento. Que a fazendo orar, não a punha em súplicas, curvada em lágrimas. Não era domínio, nem submissão. Era o suspiro entrecortado, contido. Trazia o sabor das manhãs de sol. Não era muito, nem pouco. Era a conta exata. Era toda a angústia que esgotara em lágrimas e que afogava-se, morrendo. Era o toque, o segredo espelhado nos olhos de ambos. Era o amor que amava. E ela soubera. No beijo do amor amigo, a pergunta se transformou em resposta.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 21/05/2005
Código do texto: T18436

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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