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Peixinhos

Estava tudo tão calmo naquele tempo, que tão calmo era o tempo e não se notava o tempo passar. Passeava-se por ali e aqui, acolá e algures e alhures ela cantava dessas cantigas que se cantam e cantarolam nos pensamentos perdidos em devaneios de criança que sabe cantar brincando. Brincando estava ela que estava só pelos lábios do rio, na ribeira, nas pedras onde saltita a água parvalhona de espumas brincalhonas que salpicam, e até encharcam a roupa que há de fazer ralhar a mãe, ter lavado a roupa, batido a roupa, quarado a roupa na borda do rio, nas pedras da ribeira onde encharca de suor o rosto cansado do trabalho de mãe. E ali só de sozinha não estava, com tanta água, a rapariguita encontrava como quem não procurava os pequeninos peixinhos coloridos aos montinhos, que tentava apanhar com as conchas das mãos armadas em espera, esperando um mais distraído que pudesse apanhar, para levar pra casa e por num copinho com água turva do rio, que é a casa do peixinho, que não o quer tristonho, e se puder vai tentar apanhar um amiguinho para ele não ficar sozinho na casa nova, como ela, que não tem ninguém que se apalpe e chame e brinque com ela, que seja mais um menos triste. A mãe não há de ralhar com o peixinho que vai se esconder com o amiguinho num copinho debaixo da palha da cama estreita. Já tenho tudo pensado, o que é isso, menina, nada, mãe, debaixo da cama, nada, mãe, nadando com o amiguinho escondido sem a mãe saber, cantarolando aquela cantiga de encher mãos de peixes coloridos pra brincar. Ops! Escapa um e outro e tantos que dá mal jeito nas pernas de tanto tempo de cócoras e senta-se na pedra do rio que dá jeito e vai mais fundo o braço, mais perto dos peixinhos amiguinhos coloridos, são amarelinhos, e fica com o nariz a um nariz do espelho d’água pra ver melhor. Ops! Quase um e molha o nariz, quase outro e outro e mais um e nada. Não saio daqui sem ti, e vão os dois, que eu quero muitos pra brincar comigo essas brincadeiras de peixinhos amarelos sem mãe que castigue, bata, ralhe, trabalhe, sofra ou apanhe dos pais que aparecem sem serem pais, nas horas da mãe dormir na cama de ferro sem palha, com panos limpos atrás do pano, toda nua a espera. A taipa da casa quase perdida e não se arranja que não há como, que barro não falta, é terra e água, e terra tem, e água tem muita, e falta é mão forte e sábia que faça pra não cair com o vento de inverno ou chuva do verão quente como agora e é bom e sabe bem ver os peixinhos com os pés e braços e o nariz dentro d’água, ver essas brincadeiras todo o dia, todo o dia a brincar sem chatices.
Estava tudo tão calmo naquele tempo sem tempo que ela parou de cantar ao ver peixinhos amarelos tão felizes, brincando tão felizes os seus amiguinhos num corre-corre, num nada-nada às voltas do rabo dum no rabo doutro em ziguezague parados aos beijinhos uns nos outros e nas pedras, assustados e desconfiados e rápidos que desaparecem, que não se consegue ver pra onde vão, que eu quero ir também, nadar no rio, perto da ribeira das pedras da mãe lavar pra fora que vou ter saudades, saudades da mãe que se ama, não da mãe que ralha e bate e castiga e apanha e chora toda noite, mas vou brincar com os dois amiguinhos peixinhos que eu queria num copinho com água turva do rio, meus amiguinhos de brincar. Viver dessa vida que se vive assim, mãe, é triste, sem amiguinhos de pegar e ver e falar, mãe, e trabalhar tão cedo com as trouxas das roupas que a mãe lava, mãe, não é bom, mãe, mas eu gosto de ti, muito, muito, muito, mãe, porque a mãe é boa, mãe. Ela já não canta e agora não brinca e fica com o nariz a um nariz do espelho d’água a ver e querendo ser um peixinho amarelo com amiguinhos a nadar. E vai nadar sem saber, que nadar se aprende com peixinhos que brincam, que nadar só é ruim primeiro, que depois passa, e ela não debate-se porque não é bom, espanta os amiguinhos amarelinhos, os peixinhos, mas chama a mãe porque está com medo, e chama de novo mas, mãe, desculpa, não bata que eu só queria ter um peixinho amarelinho com um amiguinho num copinho com água turva do rio debaixo da palha da cama, e queria brincar num corre-corre, num nada-nada às voltas, mas nadar não se aprende assim, mãe, eu não sabia, eu só queria ser feliz como um peixinho amarelinho, mãe, desculpa, mas eu não sei nadar, mãe, não sei nadar e vou ser peixinho e ainda ficou muitos dias escondida, assustada e desconfiada debaixo da pedra que dá jeito na ribeira, no rio de brincar.
Antonio Antunes
Enviado por Antonio Antunes em 30/06/2006
Código do texto: T185107
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Sobre o autor
Antonio Antunes
Reino Unido, 41 anos
41 textos (868 leituras)
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