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Não me lembro em que dia foi, mas deve ter sido numa quarta-feira pois tenho folga na segunda e havia trocado com uma amiga já não sei porquê, e estava indo para o trabalho num dia de semana depois da minha folga que não tinha sido no dia certo. Também não fiz o mesmo caminho do costume também não sei porquê, mas fiz o mais longo, pela Praça do Chile, que foi onde eu vi um casal de turistas às fotos em meio àquele trânsito de quem vai para o trabalho e não parei no café à entrada do escritório, passei por ele e entrei num mais a frente onde nunca havia ido e que era até mais agradável e asseado que o outro, com mais espaço e uma confeitaria gulosa que dava gosto. Foi quando dei cabo do regime e vi gente que estava sempre ali perto e nunca havia visto. Deu para chegar atrasada ao trabalho com a cara de espanto da recepcionista do edifício que já achava que eu não iria naquele dia, que disse que já ligava para saber se alguma coisa poderia fazer, se era caso de constipação mal curada que o tempo era de maleitas de pulmão, mas não era nada e meus colegas admiravam-se do meu sorrir descontraída, do manipular papeis e teclados e telefones descuidadamente em destreza de hábito, aérea, distraída e não me lembro bem se houve algo mais além, pois fui almoçar longe naquele dia, num restaurante exótico por oriental, uma comidinha leve sem gorduras, devia ser peixe, e fui sozinha sem saber onde ia, passeando num taxi em horas de almoço em plena Lisboa em dia de semana sem saber onde ia, seguindo o conselho gastronómico duma taxista desabituada a esses disparates àquelas horas mas com as respostas mesmo prontas ao meu alegre espanto curioso ao ver uma taxista e não um que me servisse.
Não me lembro muito bem, mas, pela tarde, não voltei ao escritório e resolvi optar por um passeio pela ribeira ou algo assim, pois apanhei o metro pela caravela e só parei no fim com o tempo ameno e uma brisa fresca aconchegante que me alienava e acarinhava e quase me convenceu em tirar os sapatos mas as pedras da calçada estavam mesmo frias, e sentei-me na amurada a ver o Tejo leitoso, admirando aquela imponência espaçosa que é o Terreiro do Paço sem pensar, e não sei mesmo como ali fiquei até ao entardecer vendo aquela parte da pequenina Lisboa que já não via a não sei quanto tempo e quando cheguei em casa não estava cansada, não sei porquê, tomei um banho demorado na velha banheira como se fosse num daqueles filmes românticos mas sem as pétalas ou sais, mas não interessa porque soube tão bem aquele banho rejuvenecedor que me fazia feliz sem motivo e, não sei, mas acho que foi por isso que escolhi um belo vestido de outono que tinha, em tons pasteis quase primaveris em malha aberta com uns sapatos de salto suave que combinavam com uma pequena bolsa, um colar e brincos que realçavam meus cabelos que apanhei numa longa trança que deve ter-me dado muito trabalho fazer desapercebidamente sem notar, e eu devo ter-me sentido bela, uma mulher madura e mesmo linda a passear pelas ruas e ruelas do Bairro Alto, parando e jantando e por ali ficando numa casa de fados com bons fadistas, bebericando um bom vinho de não sei onde numa letargia adormecida de quem goza um bom momento.
Não me lembro mesmo se foi nesse dia mas deve ter sido pois não pode ter sido noutro, que noutro nunca haveria ser-se uma noite como aquela, onde eu bebia vinho tinto muito agradável e permitia a companhia inocente dum cavalheiro bonito, jovem e bem apessoado que me ofereceu mais uma taça do meu vinho, acho eu, que achei graça e conversamos sobre sei lá o quê, e pedimos algumas musicas e nos confundiram como sendo um casal admirável e feliz, e aquela educação galante em levantar-se quando fui retocar a maquilhagem e vi-me corada ao espelho, mais leve que meus sapatos de salto leve, excitada com a presença do rapaz de olhos verdes com quem fui esticar a noite num café logo ao lado, com uma musica boa de dançar e cheio mesmo sendo dia de semana, mas é sempre assim, disse-me ele, e dançamos muito e não devo ter-me saído tão mal quanto isso pois ele sorria sempre, sedutor, charmoso. Já deveria ser tarde quando ofereceu-se como por sobre um cavalo branco para me levar para casa e numa daquelas ruas estreitas e escuras que por ali andam, onde ninguém passa, beijou-me com ardor e vontade e nos amamos rápida e furtivamente como nunca mais, pois saí correndo admirada de mim, chamando-me louca, tresloucada,  e realmente não me lembro mesmo se foi assim ou não, mas teria sido bom se fosse.
Antonio Antunes
Enviado por Antonio Antunes em 01/07/2006
Código do texto: T185466
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Sobre o autor
Antonio Antunes
Reino Unido, 41 anos
41 textos (868 leituras)
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Antonio Antunes