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No primeiro dia

Convencida eu fui por mim, no primeiro dia da primeira vez em que o vi passar pela rua, de mãos dadas com aquela que não era a que sou hoje, de que seria ele. Vi-o passar elegante, magro e feio, numas calças de ganga que metiam nojo de relaxadas que eram e velhas que eram e combinavam com a camisa do trabalho que não tinha, ou teve, despenteado, decomposto, fumando um cigarro no canto da boca maliciosa, pendurado, enquanto falava com as mãos nos bolsos, um chapéu ensebado, preto, no bolso da calça e um andar rebolado que me convenceu que seria bom se fosse ele da primeira vez. Aquela conversa mole que amolece e derrete as intenções que eu não ouvia, mas estavam ali depois de seduzidas pela minha vontade, pois não dizia nada do que eu queria ver, mas sentia tanto que seria tanto aquilo que me era tão calmo e caro que minhas dúvidas dissiparam-se quando me vi menina pelo espelho da montra da loja de roupas prontas na avenida da praça ao pé de casa, andando pelo braço daquele maltrapilho lindo, irresponsável, poeta que me amava em poesia barata que me encantava nas mensagens que recebia de manhã, para acordar feliz antes das aulas.
Tanto medo eu tive no primeiro dia da primeira vez em que decidi tentar decidir se abandonava o meu primeiro amor que já não amava, que tremia desse medo de estar só com ele, ausente dele sem que ele pudesse saber se me fazia a falta que me faz. Não fui mulher com ele e dele não seria a minha primeira vez mas decidi que fiquei convencida naquele primeiro dia que ele seria o primeiro a ser, a existir em mim como uma alma vagabunda, desalojada de existência a pedir morada junto a minha apaixonada e solitária e medrosa alma, que tremia de medo de estar só com ele ausente sem nunca ter sentido sua ausência. Era tal o medo que demorei muito tempo, e tanta foi a pressa que não abandonei-me e convenci-me naquele dia que não haveriam mais dúvidas, apenas as dolorosas confusões perturbadas que me fazem sofrer tanto, e o  fazem sofrer tanto e sofremos demais quando estamos ausentes num querer estar tão próximos quanto impossível for, que esquecemos as confusões de problemas tantos que criamos ao redor.
Resolvi despir-me de tudo quanto pudores fossem, de todas as regras possíveis e colocar-me nua de prazeres em seu pensamento, convencida estava de que facilmente seriam derramadas as minhas lágrimas em batalha, e cavalguei sua boca nua em desejos, fugidia em pequenos urros, alimentei-me de sua luxúria, de sua franqueza, de sua vergonha, felina era minha fúria decidida, determinada em rugir em garras armadas enfiadas em suas costas despidas, despedaçadas em lençóis de flanela, e ronronar em súplicas e meiguices, enroscada em seu corpo magro, ágil, sedento como o meu, belo, perfeito ardil de ninfa trigueira em avidez de amar e ser amada tantas e mais vezes sem estas difíceis lágrimas que derramo sem tempo para ser mais e maior a batalha, tamanha a guerra que fazia, a luta que não terminava.
E revolvia-me e emaranhava-me nele, e arrependia-me de me ter convencido nele, e arrependia-me de me ter arrependido dele, e queria-o tanto que queria-o demais ao mesmo tempo novamente. E queria sofrer tanto por ele, frustrar-me por ele, matá-lo por mim, parir-lhe e pari-lo por nós, magoá-lo e parti-lo, acarinhá-lo e ser-lhe sempre, sempre, sempre e sempre ser-lhe a mulher encantada e farta de poesia barata, a mulher convencida em ser a mulher. Imaginava-me acudindo-lhe as frustrações, remendando-lhe os pecados impuros, deitando-lhe no lixo as calças de ganga de merda, comprando-lhe um beijo fácil de carícias em caras e jeitos e olhinhos mortos, temendo-lhe o feitio e a fúria, dominando-o em acalanto, amando-o.
E convencida eu fui por fim, no primeiro dia da primeira vez em que o vi passar pela rua do espelho da montra da loja de roupas prontas na avenida da praça ao pé de casa, lindo em cãs e terno de linho sem gravata num sapato negro flamante, um Panamá tombado pra nuca e cigarrilha em óculos de sol, uma bengala dançarina, de braço dado com aquela que era a que sou hoje, envelhecida e feliz a caminho de casa, que ele seria eternamente meu.
Antonio Antunes
Enviado por Antonio Antunes em 01/07/2006
Código do texto: T185467
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Sobre o autor
Antonio Antunes
Reino Unido, 41 anos
41 textos (868 leituras)
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Antonio Antunes