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Brasil não foi proveito, foi pura fama

"Bem que fomos felizes só durante o prelúdio/ gargalhadas e lágrimas até irmos pro estúdio/ mas na hora da cama nada pintou direito, é minha cara falar/ não sou proveito sou pura fama".

Pois, ao final do jogo do Brasil com a França, foi essa parte da música Eclipse Oculto do Caetano Veloso que me veio a mente. O futebol dos sonhos só chutou uma bola a gol, para o goleiro francês defender, aos 45 minutos do segundo tempo! Logo, perdemos bem perdido, jogando um futebol que, de tão aquém da fama com a qual a seleção brasileira foi para a Alemanha, chegou a ser ridículo. Na verdade, fica claro que muito do futebol é só marketing, propaganda e, na hora do vamos ver, muitos gigantes mostram ter pés de barro!
Lamentável foi a eliminação da Argentina, que jogou melhor que a Alemanha! O Brasil foi eliminado naturalmente pela França com toda a justiça ante o futebol que se viu no jogo.

A França é uma espinha engasgada para o futebol brasileiro. Na Copa de 1986, nos eliminaram nas quartas de final, nos pênaltis. Ganharam a Copa de nós em 1998 e, agora, mostraram que a "Seleção dos Sonhos" era um Seleção de Contos de Fada, pura fantasia e imaginação.
Não vejo culpa no técnico Parreira. Depois do jogo com Gana, todo mundo aqui no Brasil, torcida e imprensa, pediram a entrada do Juninho Pernanbucano e a ida do Ronaldinho Gaúcho para o ataque, com o Ronaldo. Ele fez, e no que deu? Juninho não jogou nada e nós perdemos o meio campo para a França, ficamos sem criatividade no meio.
E o gordo Ronaldo, foi o culpado? Não! Foi o nosso goledor na Copa e no jogo de hoje foi quem chutou a gol, sendo o nosso atacante mais efetivo durante toda a partida. Agora, se o time não cria no meio campo e a bola não chega no ataque, aí não tem jeito.
Claro que o sistema de jogo da França teve seus méritos, mas de um time com tantos grandes jogadores se esperava algo mais do que a mediocridade ante a primeira seleção de alto nível técnico que enfrentou nessa Copa. Não há desculpa. O Brasil estava imobilizado em campo.
Para os jogadores dessa geração, que estavam na final de 1998, a França vai ser o trauma que eles vão carregar para o resto da vida, como a única derrota que eles não puderam dar a volta por cima. Para os torcedores que nasceram na década de 60, a França estará engasgada até uma nova Copa onde o Brasil a enfrente num jogo da fase "mata-mata" ou final e supere os franceses. Para essa geração de jogadores, que, diga-se de passagem, é vitoriosa, tendo disputado três finais em quatro copas (1994, 1998, 2002 e 2006), ganhado duas e deixado na história o maior goleador das copas, Ronaldo (com 15 gols), a França será um trauma comparável ao Uruguai de 1950, que nos ganhou aquela Copa realizada no Brasil, de virada, em pleno Maracanã lotado.
Uma coisa que eu vou dizer, e acho que muita gente vai me criticar por isso, é que quando eu comecei a ver a Globo com o Olodum como referência de animação nos jogos, a Ivete Sangalo nos programas do Galvão e a (bela) Gil no Apito Final da Band, pensei: Bah, vão dar azar, pois o Bahia e o Vitória estão na terceira divisão do brasileiro. Não deu outra. Claro que não é culpa dos baianos, isso é pura superstição de minha parte, mas juro que pensei.
Pelo lado cultural, então, sei que nem se justifica tal superstição, pois é só pensar nos trios elétricos, na (linda) Daniela Mercury, no tropicalismo, Novos Baianos, Gilberto Gil, Jorge Amado, Dorival Caymi, João Gilberto e o Caetano, autor do texto com o qual abri essa crônica. A cultura baiana é o que de melhor e mais original tem aprecido, desde a muito tempo, no Brasil. Mas no futebol, atualmente, é pura pindaíba. E daí a minha superstição, que não é bairrismo de gaúcho arrogante, acreditem.
Aliás, com o desempenho do Ronaldinho Gaúcho na Copa, um gaúcho pode ser tudo, menos arrogante. Primeiro o guri não estava jogando por estar marcando no meio campo, diferente do que fazia no Barcelona, onde joga adiantado. Bom, hoje ele jogou adiantado e não fez uma única jogado incisiva. Culpa do Parreira? Claro que não. Devemos muito ao guri e ele ainda deve nos dar muitas alegrias mas, de qualquer jeito, ele não correspondeu as nossas expectativas.
O brasileiro pobre, para quem o futebol é um elemento que eleva a auto-estima, ficou órfão de nacionalismo, aquela coisa cultural da "pátria de chuteiras", do "Ah, sou brasileiro, como muito orgulho, com muito amor". A vida continuará difícil e nem o alento do futebol campeão mundial vai haver.
Para os nossos jogadores, bom, será apenas uma derrota pessoal e trauma de quem tem uma vida muito boa, ganha bem e mora na Europa. Nada contra o sucesso profissional deles, mas creio que a coisa é bem assim mesmo, isto é, quem tem mais condições e qualidade de vida sofre menos com essas perdas simbólicas.
Nos Zidanamos de novo! Agora é torcer para Portugal e para o Felipão. Bueno, somos, em grande parte, portugueses transplantados, não?

(PS - Quando o time do Internacional de Porto Alegre, Vice-Campeão Brasileiro 2005, cheio de craques, perdeu o Campeonato Gaúcho 2006 para o Grêmio, este recém vindo da segunda divisão, desacreditado e com time inferior, pensei ao final do jogo: bah, o Inter é a Seleção Brasileira amanhã! Achei esquisito o pensamento, mas que foi uma premonição foi. Ambos caíram do "salto alto", não foram proveito, foram pura fama. )
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 01/07/2006
Reeditado em 28/12/2006
Código do texto: T185830
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 48 anos
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