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Setecentos contos

Setecentos e vinte e cinco mil, novecentos e trinta e dois escudos e quarenta e dois centavos ao portador daquele pedaço de papel impresso timbrado com marcas do banco que é português porquê está escrito no nome, foi quanto eu levei por ser uma boa rapariga e ter trabalhado tantos anos nos teares grandes e mecânicos da grande tecelagem da vila. Parecia muito quando disseram que me mandavam embora, que não havia mais possibilidade de manter um funcionário sequer, que o jeito era fechar e eu fiquei muito triste, gostava do trabalho e das raparigas que trabalhavam comigo, das minhas colegas de trabalho e da cor do edifício, um vermelho antigo e grande. Ainda passei e continuei a acordar a horas de ir trabalhar e passar em frente da tecelagem fechada como quem faz passeio de romaria para matar saudade. E um dia ardeu, ardeu com um fogo grande de arder tudo o que toca, ou lambe, que as chamas lambem e ardem com a saliva delas que são quentes. Toda a fábrica de tecidos de fazendas, com mais ou menos de poliéster que era um nome giro e difícil que eu aprendi, e fazendas de pura lã macias que davam gozo passar-lhes com as mãos, tudo feito cinzas que tudo estava nos armazéns e depósitos, os cobertores arderam que são bons de arder como quem arde sob eles, que a fábrica fechou e uns putos fugiram da escola para fumar um cigarro escondidos na fábrica, e esqueceram a beata acesa e foram brincar e queimou, ardeu tudo. Ainda me lembro de estar em casa vendo uma fumacinha sair e era coisa pouca mas cresceu rápido e a sirene dos bombeiros começou a apitar, ai, meu Deus que a fábrica está a arder e chorei tanto vendo aquilo queimar e arder e ardeu o cheque que a moça do banco português da sucursal mais próxima que perto da minha casa disse que não havia cobertura possível, que a empresa faliu porquê não possuía organização financeira, que haviam negócios escuros, ou escusos, bens que não eram muito bem geridos, coisas desviadas, acho eu, e ardeu para o seguro pagar e não havia paciência e muito menos dinheiro ou ponta por onde se pegue, que deveria entrar em tribunal como as outras, e esperar como as outras que seguiram logo ao sindicato das operárias da indústria tecelã do vale do Tejo e arredores nacionais. Mas a senhora doutora do sindicato das operárias disse que levaria tempo receber e o papel do banco era tão bonito com meu nome escrito à mão com números tão grandes que era impossível aquilo ser dinheiro para mim. E deu tanto dó como dá dó agora, quando se passa pela fábrica e não há mais que uma fachada instável que nem equilíbrio tem e um dia cai, que a cair todos estamos e um dia caímos todos.
Com setecentos e vinte e cinco mil, novecentos e trinta e dois escudos e quarenta e dois centavos eu até dava um jeitinho na minha vidinha e já não trabalhava mais no café que dá frente à fábrica do outro lado do rio da vila que eu gosto tanto e já a tanto tempo o vejo que até me cansei olhando aquele prédio que daqui ainda está inteiro, parece que ainda fabrica coisas finas, tecidos de fazenda. Me casei e só dei filhas que conhecem a história que eu contei do tempo que lá trabalhei quando elas nasceram, do trabalho que era muito pros dois mas ainda dava tempo pra brincar e sair e passear e brigar e voltar a trabalhar, mas como era diferente elas não percebem, não sabem que aquela fábrica grande em ruínas era grande e muito grande e muito bom de trabalhar lá. E deixou-me marcas na memória em jeito de lembranças de coisas passadas à tanto tempo lá, coisas boas e más, mas são sempre lembranças que não se esquecem, estão guardadas na memória. Um tear avariou e fiquei a dormir e ganhei o dia dormindo enquanto eles arrumavam e se esqueceram de me mandar para outro lugar, ou foi um dia de muita chuva com camiões para carregar e as moças na chuva, já noite, carregando camiões, já tarde, sem ganhar um tostão a mais por isso. Mas era companheirismo e muita futriquisse, muito disse não disse, mas era tão bom que era até estranho. Hoje o café dá para as contas e as miúdas já vão crescidas e o meu marido é motorista e ajuda nas contas e a antiga amiga da fábrica que era do sindicato me ligou para ir buscar o cheque, novamente o tal papelinho timbrado do banco cá de Portugal, pois agora era a sério, seria pago sessenta por cento do valor corrigido dos sete anos de espera monetária. Fui rever as amigas e revi os amigos e foi um tal chorar e contar novidades e coisas e teve até gente que morreu e eu não sabia, que casou e eu não sabia, que pariu e eu não sabia, que fugiu e eu não sabia, e foi muito saber num almoço das antigas empregadas da fábrica de panos a beira do rio. Troquei o cheque que não era muito mas fez-me pensar no outro, parecido, que ainda guardo na mesinha de cabeceira do meu lado, sob a caixinha de música que não canta.
Agora contam-me que leram no jornal que a minha fábrica de ricos panos vai se tornar um hotel grandioso que faz falta com um aeroporto por perto, que vão reconstruir o edifício e manter a fachada que eu ainda quero matar as minhas saudades de operária despedida, e contaram-me que leram num jornal que vão reconstruir essa fábrica para transformá-la num grande centro cultural, um centro cultural pra vila que faz falta, com o progresso chegando com o tal aeroporto e muita coisa vai sendo feita nos jornais com a minha fábrica que sinto falta e guardo num cheque timbrado do banco que agora tem sucursal na vila e vale uns setecentos e vinte e cinco mil, novecentos e trinta e dois escudos e uns trocados de saudade.
Antonio Antunes
Enviado por Antonio Antunes em 02/07/2006
Código do texto: T186040
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Sobre o autor
Antonio Antunes
Reino Unido, 41 anos
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