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Alguém me Reclama

     Essa noite minha cachorra dormiu comigo. Quando isso acontece, ela mantém a cabeça sobre a minha perna. Fica quietinha, completamente imóvel, como se com medo de que eu acorde e a expulse dali. O calor é intenso. E, devo confessar, gostoso. Dorme sobre a toalha dela, ela e a toalha sempre limpinhas. Quando chegamos da rua, ela pára na cozinha para que eu lhe enxugue ou limpe as patinhas. Vai dando uma por uma. É dengosa. Gosta de que eu trate dela. É comum que, quando lhe diga pra beber água, ela me atenda. Isso acontece também diante da bica que existe lá no térreo do prédio. Nunca late. É incrível, mas é isso mesmo. Acho que é por causa da raça. Quando estamos na porta (aberta) pra sair, ela fica me aguardando, me olhando de lado. Se volto pra cozinha ou pro quarto, ela não sai, não vai para o corredor. Fica esperando. Quando percebe que não é para ela ir, quando não apanho a corrente que fica pendurada na maçaneta da porta da cozinha, ela se deita no chão e me deita aquele olhar meio triste, tipo rabo-de-olho. Parece me ouvir: “Mamãe já vai, viu? Mas não demora. Mamãe volta logo. Tavinho já vem. Daqui a pouco ele tá aí”. Gustavo é o meu filho. O dono dela na verdade. Eu devo ser a segunda pessoa. Às vezes fica dando muxoxo, que pode ser confundido com um leve trinado. Aí já sei que ela quer fazer cocô ou xixi. Pego a corrente e a coleira e vamos para os espaçosos jardins do condomínio. Ela procura um lugar na graminha. Se meu filho e eu não estamos em casa, e só no último caso, ela vai pros jornais que mantenho na cozinha. Caso contrário, é sempre na graminha dos jardins do condomínio. Sei pela maneira de cheirar se vai fazer cocô ou xixi. Nos jardins do condomínio há inúmeros coqueiros de pequena altura. Coco é o seu divertimento predileto. Apesar de ter sido criada em apartamento, ela dá saltos de mais de 2,50m. É o resultado dos extenuantes exercícios a que foi submetida, desde menina, pelo Gustavo. Em decorrência disso ficou troncuda, forte e maciça. O que não lhe prejudicou a impulsão, de que se vale para, com a ajuda das unhas, nem sempre aparadas por falta de grana, completar o salto com uma pequena subida no tronco da árvore até alcançar o coco. Que cai com ela para ser estraçalhado sem pressa em alguns minutos. Quando chego em casa, é sempre aquilo. Pega um desses ossos que a gente compra nessas pet shops por aí e vem com ele na boca se rebolando. Quando meu namorado está comigo, ela balança mais intensamente o rabinho ao ouvir-lhe dizer: “Olha, o rabinho, olha o rabinho!” E aí ela faz com mais força para que ele sinta melhor os impactos na mão que mantém na trajetória do rabinho dela. Quando estou na casa dele, por vezes penso que ela pode sentir a minha ausência. Mesmo que o Gustavo esteja com ela. Não pode pegar um telefone, reclamar com uma amiga ou alguém da família, não pode me dar esporro por ter sumido, etc. Como às vezes faço com meu namorado. Poderá apenas reproduzir aquele olhar que resume tudo o que só o Gustavo e eu talvez possamos entender. Se há um temporal e estou na rua, quero logo chegar em casa. Tenho medo de que ela se assuste com o barulho das trovoadas. O mesmo acontece durante as festas juninas. Por isso tô indo correndo pra casa agora.


Rio, 02/07/2006  
Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 03/07/2006
Reeditado em 30/10/2006
Código do texto: T186508

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Sobre o autor
Aluizio Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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