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O DIA DO ÍNDIO

Terezinha Pereira

Soube que lá na reserva indígena haviam mandado construir uma escola. Muito chique. Uma escola bilíngüe. Escola Bilíngüe Português-guarani. Os índios, umas quatrocentas cabeças,   agora podem  aprender a ler e a escrever em português e ainda exercitar sua própria língua, para que ela não desapareça. Corri lá para conhecer. Eu disse podem? Podiam. Até há dois meses atrás.  A escola funcionou até dois meses atrás.  O que aconteceu? Aconteceu que as autoridades atinaram que os índios precisavam de energia elétrica. Que coisa, no escuro! Moram tão perto da cidade, conhecem tudo que por lá existe. Não custaria nada mandar iluminar os seus casebres. Casebres? Que isso... Cabanas. A escola também precisa de luz, de água quente.  Precisa de um aparelho de som, de uma televisão, de um vídeo. Índio também merece a modernidade. Bem. Vamos mandar instalar a energia elétrica na aldeia. Energia elétrica só? Por que não aproveitar da  fonte natural do sol, o que mais tem nessa aldeia quase à beira-mar? Podemos mandar instalar energia solar para o aquecimento da água. Pobres indígenas. Há quinhentos e poucos  anos se banhando com a água fria das cachoeiras. É.
As instalações estão prontas para funcionar.  Tecnologia de ponta. Precisamos fazer uma festa. Mandar convites para as autoridades da cidade, das cidades vizinhas, para os jornais mais lidos da capital. É bom deixar  bem esclarecido o valor de nosso investimento. Inaugurar uma obra deste porte numa aldeia indígena, em silêncio? Calar sobre o quanto custou? Nunca. Que comprem  muitos foguetes. Faremos a festa à noite. A aldeia iluminada, um carro de som com música bem alta e estrondo de foguetes. Os índios vão se sentir importantes. Os índios?
Maravilha! Cascatas de luz iluminando o céu da aldeia. Bem. Olhem lá.  Não haveria muita luz por cima do teto da escola? Luz demais. Um fogaréu. Foi só uma faísca. E zás.  Era uma vez uma cobertura de sapé.
Faz quinze dias que terminaram as obras de reparo da escola da reserva indígena. Ficou vistosa com sua cobertura de telhas, como na cidade. Já começaram as aulas? Que isso! Mas, as crianças  estão por aí, os jovens estão por aí, só olhando o sol atravessar o céu? O que estão ainda esperando para recomeçarem as aulas? Bem, o prefeito da cidade disse que a agenda do governador está cheia. Ele só poderá vir no fim do mês que vem para a inauguração. Enquanto isso, vão comprando os foguetes. Enquanto isso...Índio espera. Teria  índio  alguma perspectiva de futuro? Povo teria? Você? Um dia...
Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 21/05/2005
Código do texto: T18704
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Sobre a autora
Terezinha Pereira
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
124 textos (52874 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 20:43)