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MEU BISAVÔ NÃO SABE O QUE É INTERNETE


Papel aceita qualquer coisa, diz meu bisavô ainda hoje. Ele não conhece a internete; já está muito velho para entender a informática e suas infinitas possibilidades. Pois nela quase tudo é possível ser feito, inclusive escrever, ou inscrevê, ou escrevê ou rabiscar e farfalhar e espargir letras. Tem gente pra tudo. Tem saite pra todo o tipo de gente.
Quando uma cabeça se chocar com um livro e ouvir-se um som oco pode ser do livro. Quando num saite aparecerem muitos leitores...muitos escritores, não se pense que todos são o que acreditam ser. Saber escrever e ler pode não significar o que se apregoa. A erradicação do analfabetismo pode ser apenas um dado estatístico. Escrever é para escritores, sejam aceitos ou não; sejam gostados ou não. Não existe escritor amador como não existe médico amador, pintor amador, general amador, freira amadora. Confunde-se amador com coisa ruim, mal feita, sem compromisso com a qualidade. Tem gente que acha que amador é sinônimo de diletante e diletância de passa-tempo. E o contrário de amador não é necessariamente profissional, como esse não o é por oficio ou obrigação. Faça-se ou não da escrita uma profissão, quem escreve pode exercer uma outra, ou várias outras, atividades profissionais como faz, a propósito, a maioria dos escritores. Quem escreve é escritor e pronto, e só. Nada de ser amador para esconder suas falhas e seus defeitos.
Quem lê não lê porque tem, ou adquiriu, o habito da leitura desde pequenininho, como se diz por aí; mas, sim é habituado a ler por que gosta; e gosta porque sente prazer. Portanto não se adquire o habito de ler; adquire-se o gosto pela leitura depois de experimentá-la, é claro, e esse sim se torna um habito por sua freqüência. Como outro qualquer: jogar futebol todas as terças feiras, fazer um churrasco aos domingos, só beber água de coco na praia...e esses são os bons hábitos. Pois há os maus hábitos, como se sabe.
Escreve-se na internete, por esse planeta afora, como ainda  não se fez desde os primórdios da humanidade. Se todos os saites e os blogues se tornassem livros impressos, não haveria mais uma só folha de papel disponível em toda a Terra, nem para se rabiscar um simples bilhete. Neles tem-se de tudo em formato de escrevedura: ingenuidade juvenil, assuntos bisonhos, arroubos filosóficos domésticos, e textos relevantes, bem construídos e de acordo com a norma culta do idioma nacional. E por ser grande, mundial e entrelaçada – www – na internete cabe tudo de quem quiser nela colocar qualquer coisa.
“Meus amor tem poema novo na minha página. Pace la”
"Qué se arripia? Visita minha página. Bjs no corassão”
"Oi,  não deiche de da uma paçadinha no meu cantinho, ta gente?”
“Brigado pru seis tudo. To comemorando mais 10.896 visitinha. E só nece méis!!! Ui,ui,ui!”
“Postei nesce istanti no Rincão umas crônica, 10 poetrix, 23 duplix, e um montão de frase lindinha.”
"Olá rincãoseiros. Passei pra diser que vou pra Brazilha e dispois vo pra Frolinoplis e de lá pra Sum Paulo no vinhão das cete hora. Abrasso, Nirso".
E assim é o dia e a noite nesse acaudalado aquerôntico espacial. E mais e mais gente vai escrevendo e sendo lida. Nunca se leu tanto no último século; nem tantos escritores escreveram aos borbotões. E logo formaram grupos. Escritores aos magotes em competição frenética. E as leituras dos escritores multiplicaram-se em proporção geométrica. Auto fecundadas, hermafrodíticas todas, no entanto. Diante disso outros escribas foram encorajados a “postar” – é de poste mesmo – seus textos. Postes sem lâmpadas e, portanto, sem condições de iluminar saberes, corações e almas. Porém competitivos. Mas também sem interação cultural; porém competitivos. Simples – sem elaboração literária - e humildes – sem compromisso com paradigmas. Com a única e tola preocupação de ser competitivo a qualquer custo. O desafio não é esse. O desafio, porém, é não ser competitivo.
"A parti de oje nois tudo vamo fazê feito o Nirso. Si priocupá menos em iscrevê serto, mod dicê lido maiz. Acinado, Os iscritor."
O bom texto leva tempo para ser elaborado; às vezes tempo de sobra para ser amadurecido, revisto, reescrito, revisado. Seja ele um livro inteiro ou uma pequena frase, simples, com duas palavras. Como como! por exemplo. Quantidade não significa necessariamente qualidade; nem de livros e nem de leitores. E tudo o que é demais aborrece. Um só copo de água mata a sede; um oceano inteiro mata afogado o afoito.
CESAR CABRAL
Enviado por CESAR CABRAL em 04/07/2006
Código do texto: T187649
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
CESAR CABRAL
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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