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PÃO E POESIA

CRÔNICAS
I

 
Quantas vidas ainda me restam para aprimorar os sentimentos e a emoção? Quantos sorrisos ainda a desabrochar? Quantos carinhos e flores colher? Quantas estradas percorrer? Amores a conquistar?
No silêncio da noite a resposta é como a lua de prata brilhando enigmas. O caminhar das estrelas me atinge por inteiro. Sonhos. Devaneios. Tudo é magia. Sou feito de distâncias e proximidades. Os opostos não me intrigam. A beleza é relativa ao perfume da flor e à essência da sinceridade.
 
II
 
A maquilagem do homem costuma ser a dubiedade. Quantas identidades você tem? Quantos seres habitam dentro de você? A enormidade dos desejos do homem se estende ao infinito e cora ao sol, na linha do horizonte. Poucos sabem o caminho a seguir. Eu caminho assim mesmo, a esmo. Vou abrindo trilhas e variantes, dobrando esquinas e me alumbrando nas praças. As borboletas do tempo me fascinam. Sei a cor do desatino. Mas ainda sei tecer esperanças e colher migalhas de eternidade. Sei a brevidade do instante, do relâmpago, da centelha na ponta da estrela de fogo cadente. Eu mesmo sou risco efêmero na luz das águas, no dorso das ondas espumantes ao luar.

III
 
Tudo o que transmuta um dia já foi. Eu vi o beijo se transformando em dor e a dor se abrindo em flores de poesia, no amarelo dos girassóis. Países distantes já me habitaram. Já fui canoeiro das Gerais e garimpeiro de bateia encantada nos grotões e córregos coruscantes. Já fui pássaro aprisionado em mil gaiolas e já tive fugas o bastante para deslumbrar  os carcereiros do tempo. Minha solidão já foi triste, mas hoje não dói mais. Aprendi com o silêncio das pedras. E, como a seiva das plantas, aprendi a ser profundo, recatado e prolífero. Uma só gota de orvalho, um único raio de sol bastam para o meu germinar. A sabedoria repousa na simplicidade. E na cumplicidade com tudo o que se faz próximo.
 
IV
 
A lágrima da criança triste é o meu mar morto. É a sombra que eu não quis atravessar. O cálice indesejado. A criança triste é a ferida que me sangra a alma. É preciso pão e poesia para iluminar em sua face o sorriso. O sorriso das crianças traz a paz e a alegria de que o mundo precisa. A alegria é um bichinho que sabe dormir histórias e lendas. E que pula cedo da cama. Alimenta-se de néctar, orvalho, estrela, nenúfares e fadas. E do som dos arco-íris. E de mais sorrisos de crianças plenas. A vida é isso: pão, poesia, criança, carinho, sorriso. Quantas vidas te restam para transmutar toda a tristeza do mundo em sorriso?
 
(José de Castro, Antologia Literária 2 – SPVA/RN -Natal/RN, 2000)

José de Castro
Enviado por José de Castro em 06/07/2006
Código do texto: T188494

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Sobre o autor
José de Castro
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil
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