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O dela

Embora estivesse com pretensões de mudar, de largar o vício, seu primeiro desejo ao levantar foi pegar sua cigarreira. Passou a mão delicadamente entre os detalhes em alto relevo do desenho que estampava a caixinha de prata que ganhara do pai. Herança de família, como o vício. Tinha algumas flores, folhas pequenas e levemente riscadas com alguma ferramenta que desconhecia, mas que fazia com que seus olhos não necessitassem ver o que estava desenhado. Há tempos guardava aquela caixa, mas somente depois da morte do pai, não entendia bem porque, passou a usar.
Estava encostada na borda grande janela, semiaberta, que dava passagem para a sacada do apartamento, observando os carros em baixo, as nuvens em cima e por entre eles, as pessoas, os prédios, a sua vida. A luz que entrava às oito horas da manhã era mais forte que a de costume, e no entanto ele continuava dormindo tranqüilo debaixo de edredons brancos, sem se incomodar com a luminosidade que rasgava os olhos dela.
Puxou delicadamente a trava da caixa que guardava o objeto desejado. Possuía uma pressa consumidora, era um tormento tornar aquilo tão vagaroso. Mas um tormento bom, algo que incomodava-a mas tinha certeza que no final conseguiria fumar seu cigarro.
Depois de três dias sem fumar, tornou-se uma semi-morta, esperando pelo próximo dia, lutando por mais um dia sem o vício. Resolveu que uma ocasião como aquela merecia ser comemorada. Além do mais, os cinco anos fumando destruíra seu pulmão de maneira que não adiantava mais nada parar. Não tinha bons hábitos alimentares, levava uma vida desregrada, de nada teria vantagem começar a levar uma vida santa naquela altura.
Segurou com presteza a ponta de vários que haviam ali. Escolheu cegamente aquele que sabia ser o melhor cigarro da sua vida, e este deslizou entre os demais acomodando-se facilmente entre seus longos dedos. Fechou a caixa com cuidado, aproximou-se do muro da sacada e ali depositou-a. Pôde apreciar mais aquela atmosfera cinzenta que cobria a cidade.
Com os dedos finos tremendo, levou o cigarro até o nariz, prolongando o agonizante prazer que aquela demora causava ao organismo. Cheirou-o, tocou-o, sentiu seu sabor sem mesmo traga-lo. Escorregou a mão esquerda para dentro hobbe azul que vestia, sentiu a pele ainda quente, sem efeito da temperatura fria que ali se dissipava. Manteve-se assim por certo tempo, até mudar a mão de lugar e alcançar com desespero o isqueiro que possuía no bolso.
Segurou-o firme e acendeu, tremula, o cigarro que segurava com dificuldade na boca, auxiliada pela mão direita.
Tragou sofregamente e demorou-se com a fumaça dentro de si. Queria sentir cada partícula daquele cigarro, queria possuir o cigarro, como se fosse a última vez que fizesse isso.
Sentiu uma leve tontura, que não sentira desde que experimentou o primeiro cigarro. As lembranças desse primeiro momento vagaram silenciosas em sua mente, junto da fumaça e da imagem juvenil do homem que agora estava ali, deitado em sua cama, nu. Experimentou a sensação de fazer algo errado, como na juventude, outra vez. E decidiu deliberadamente que aquele era definitivamente a melhor tragada que já tivera.
Passou alguns minutos deliciando com o melhor cigarro do mundo, com as melhores tragadas do mundo, até o prazer acabar e se ver de volta a realidade do quarto.
Maria Aguilar
Enviado por Maria Aguilar em 09/07/2006
Código do texto: T190645
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Sobre a autora
Maria Aguilar
São Paulo - São Paulo - Brasil
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