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Sonhei que a França ia ser campeã

O Brasil saiu fora da Copa do Mundo nas quartas de final. Torci para Portugal contra a França e não deu. Ontem torci para Portugal ficar em terceiro e repetir 1966. Não deu. Também torci para a Argentina e não deu. Bueno, então, na final, mesmo sem muita convicção, torci para a França. Que não me escutem (e se escutarem, que me perdoem) os colonos italianos e alemães aqui do Rio Grande do Sul, mas nunca torço para Alemanha e Itália. Nada contra, mas não simpatizo.
Hoje, dia do jogo, acordei meio-dia. Fui dormir tarde ontem, olhando o DVD do Led Zeppelin, o do filme, The Song Remains the Same. Fazia tempos que não o assistia. Almocei leve, apenas iogurte e pão de forma com queijo e presunto de frango. Daí resolvi ouvir uns CD’s deitado na cama, devido ao frio.
Ah, ia esquecendo, ontem deu um temporal daqueles aqui, logo depois da meia noite. Um vento muito forte. Tive de sair para rua para reforçar a gaiola do coelho e me molhei todo. Minha camisa de estimação, que ganhei da minha filha quando ela estava na pré-escola, com as pinturas da mão dela estampadas, enganchou num prego e rasgou. Desculpe, vou parar com essas particularidades sem interesse para vocês, leitores, e voltar ao assunto que dá título a essa crônica.
Onde eu estava... Ah, fui deitar na cama para ouvir música. Primeiro Sidney Magal. Adoro um brega: “Toda minha vida, eu te procurei, hoje sou feliz, com você que é tudo o que sonhei”. Magal era um ídolo da minha infância, no final dos anos 70. Queria ser o Magal, cantar e dançar daquele jeito. Saiu esse CD com as melhores deles, a guria da loja me mostrou e eu comprei. Tenho recordações de infância do Magal. Meu pai, com o seu JK Alfa Romeo (ele amava aquele carro), indo para a Vila Santo Antônio visitar o meu tio, seu cunhado. No rádio do carro, ao percorrermos a estrada que dá entrada a Vila, tocava Sandra Rosa Madalena, do Magal. Nunca esqueci disso. Poxa, desculpe, olha eu de novo com minhas lembranças.
Depois do Magal, coloquei um CD do Ravel e do Debussy. Queria ouvir o “Bolero”, do Ravel. Estou tirando de ouvido na guitarra. Fico ouvindo bastante para guardar bem a melodia principal na memória. É meu método. Fiquei pensando nas mudanças de escala utilizada. Começa na primeira parte com uma escala perfeita de dó maior, nas duas primeiras partes. Depois modula. O que é aquilo? Dó menor? Sol menor? Si bemol menor? Fá menor? Sei lá, depois descubro. Pensei no DVD do Led, que assisti ontem. O guitarra, Jimmy Page (uma das minhas referências), tocando “Dazed and Confused” por quase meia hora. Como ele improvisa ao longo da música! Ele disse em uma entrevista que não trabalha com escalas, mas sim com progressões. Fico imaginado se ele pensa nas progressões enquanto improvisa, principalmente na parte que utiliza o arco do violino para tocar. Eu não usaria, seria no puro instinto melódico uma parte daqueles, evoluindo-a apresentação por apresentação. Dever ser o que ele fazia também, acho.
Estou pensando nisso, o “Bolero” já terminou a muito tempo, rodou outra do Ravel e já está em Debussy. Adormeço. Isso é raro, quando acordo tarde não durmo depois do almoço. Sonho com a Copa do Mundo...
Quero levantar para ver o jogo. Não consigo, estou em estado de semi-consciência, o corpo não responde ao cérebro. No sonho, várias vezes levanto, vou na sala e ligo a TV. Então ela não liga e estou deitado de novo. Isso se repete umas dez vezes! Por fim, sonho que levanto, vou para a rua e, quando chego num bar daqui para assistir a final, ela já terminou. A França foi campeã! Na TV, imagens do pessoal comemorando em Paris.
Finalmente acordo. Levanto e vou para a sala. Minha mulher e filha saíram. Olho o relógio: 16 horas. Ainda bem, o jogo não começou. Ligo a TV e lá está o Galvão Bueno, da Rede Globo, falando que está no intervalo do jogo. Puxa, havia esquecido, a partida começaria às 15 horas. Perdi o primeiro tempo, estava 1x1 e eu não vi os gols. Um foi do Zidane, de pênalty, aos 7 minutos. A Itália empatou depois.
Não gosto de olhar jogo de Copa em casa, gosto de ir para um barzinho, com gente em volta. Saí para ir ver no telão do Shopping Solar. O meu sobrinho me vê e fala que o Shopping está fechado hoje. Bom, vou no Bar Paredão. Também fechado. Que coisa! Sigo para o Bar do Paulo, o do meu sonho. Tem uns caras do lado de fora e ninguém no interior. A TV está desligada. Muito fúnebre, não gostei. Resolvi ir no Bar da Rodoviária, onde ainda não havia ido assistir aos jogos da Copa. O telão é enorme e fica no salão onde eles fazem bailes. Parece cinema, escuro. Legal.
Estou com a minha camisa do Grêmio, a mesma que usei para assistir aos quatro primeiros jogos do Brasil na Copa. No jogo contra a França ela estava para lavar e, depois, fui assistir aos jogos de Portugal com a camisa da seleção portuguesa, deixando-a no armário. Hoje requisitei-a novamente.
A França está melhor em campo, para minha surpresa. Achei que a Itália era mais time. Vai para a prorrogação. Zidane quase marca de cabeça. No segundo tempo, perde a mesma cabeça e a joga contra o peito do zagueiro italiano e, justamente, é expulso. O que que o italiano disse pro Zidane para ele ter feito aquilo? Eu acho que ele deveria ter dito um monte de coisas para o italiano e deixar assim, mas aprendi nessa vida que é fácil julgar de fora, na boa, longe do olho do furacão. Bom, o Zidane resolveu não levar desaforo pra casa, coisa que muita gente faz nessas horas, em vez de engolir sapo. Como disse a Clarice Lispector, em A Hora da Estrela, “quem vive sabe”. E a gente sabe que cachorro que late não morde. E o Zidane é quietão, não fala e, logo, mordeu.
Todavia, o fato não tira o brilho de Zidane como o melhor jogador da Copa. Foi a Copa de Zidane, o único grande jogador desse mundial. O melhor dentre os melhores. Claro que a FIFA, por questões políticas, não vai dar o título de melhor para ele, por causa do tal “fair play”, que tem o seu valor. Mas a cabeçada não tira que a Copa foi de Zidane, o jogador que vai ficar na história do futebol como o ícone da Copa de 2006. Até que a cabeçada vai ainda reforçar isso, tal qual a “Mão de Deus” de Maradona em 1986, contra a Inglaterra. Não tenho dúvidas.
Vieram os pênaltis. Muito bem batidos, o que não foi regra nesta Copa. Os goleiros não defenderam nenhum. O Trezeguet mandou a sua cobrança no travessão. Deu Itália. Bah, não dei sorte nesta Copa, nenhum dos meus times ganhou.
Além do Zidane, vai ficar na história desta Copa os gols de fora da área da Argentina e da Inglaterra, aqueles que os caras mataram no peito e chutaram direto. Golaços! A Suíça, que foi embora da Copa sem perder um jogo e sem levar gol. Isso é incrível! A quase inexistência dos gols de falta em frente da grande área, até porque foi uma Copa onde as seleções se preocuparam mais em não levar gols do que fazê-los. Foi a Copa do retrancão!
E vai ser lembrada também por ser uma Copa de “estrangeiros”, pois o futebol está se tornando cosmopolita e em muitas seleções se viu jogadores “naturalizados” jogando. Além do que não devemos esquecer que grande parte dos jogadores das seleções nacionais atuam em clubes fora de seu país. Como o Brasil, por exemplo. E a França, com vários naturalizados e com a maioria dos seus jogadores jogando fora da França.
A única seleção genuinamente nacional era a Itália, a única em que todos os seus jogadores jogam em clubes do país e que tem somente um naturalizado, o Camoranesi, nascido na Argentina. Vou fazer um texto sobre isso aqui no Recanto, para debater esse negócio do pessoal chamar os atletas brasileiros de mercenários. Semana que vem eu publico.
Bueno, quanto ao sonho? Deu errado, né. Ainda bem, assim quando eu sonhar que eu ou alguém da minha família vai morrer, posso ficar tranqüilo que não vai dar nada.
Fui olhar o nome da outra música do Ravel que estava no CD. “Ravana para uma Infanta Defunta”. Ravel é francês. Muito apropriado para a ocasião.
Até semana que vem, com o texto sobre os “mercenários”.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 09/07/2006
Reeditado em 28/12/2006
Código do texto: T190793
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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
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