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PreTextos 

Rosa Pena 


(Do lat. praetextu). S.m. Razão aparente ou imaginária que se alega para dissimular o motivo real de uma ação ou omissão; desculpa.


Nascemos. Talvez seja o primeiro pretexto que a vida nos apronta.
Sim, mostrar ao mundo que o amor rendeu frutos, mostrar nossa virilidade, nosso corpo saudável, capaz de reproduzir, cumprir nossa missão de procriar. Desculpas para viver bastante tempo, visto que será nossa responsabilidade cuidar de nossa cria, como se só o fato de termos nascido não seja um ótimo pretexto para se viver intensamente.
Crescemos. Estudamos por vezes o que não gostamos, já que nossas escolhas recaem no que for mais lucrativo financeiramente. Usamos o pretexto de que precisaremos ter uma situação estável para dar vazão aos nossos ideais verdadeiros. Geralmente são adiados infinitamente, e na velhice usamos o pretexto de que ainda falta realizar sonhos, para disfarçar o medo da morte.
Namoramos e algumas vezes sequer queríamos casar. Mas casamos sob o pretexto de viver junto ao amado para sempre, como se o casamento desse esta certeza, porque o estado civil ‘casada’ pega bem, porque queremos colocar filhos no mundo de forma estável, fruto de uma união, e voltamos ao pretexto inicial. Fomos colocados no mundo e colocamos alguém que vai questionar, como eu agora, as nossas passagens na vida.
E a vida continua, e para conseguir sobreviver a tudo de bom e ruim que acontece arrumamos alegações. Não que eu esteja condenando tudo dito acima, até porque existem pretextos deliciosos na vida. Apenas filosofando.
A viagem dos sonhos é adiada pela desculpa de priorizar o estudo do filho.
Rompimentos amorosos acontecem por razões que às vezes sequer são razoáveis. Não se sai de um casamento dizendo que o amor acabou. Usa-se a desculpa de incompatibilidade de gênios et cetera e tal.
Novos amores surgem sob o pretexto de suprir a solidão, quando para amar... ah!!! não é necessário razão. Apenas emoção.
Comemos muito sob o pretexto de que estamos ansiosos; não comemos o que gostamos alegando que precisamos emagrecer para sermos belos e saudáveis.
Fazemos festas em batizados e casamentos não pelos sacramentos, mas pelos salgadinhos e pelas roupas novas, lindas e maravilhosas.
Não choramos em muitos momentos, para parecermos fortes.
Derramamo-nos em lágrimas, por vezes fora de hora, para passarmos por vítimas.
Vivemos quase toda a nossa vida dissimulando o seu objetivo principal. Qual seria, além do amor, minha única certeza?
O homem nasce porque Deus assim o quis, independente de nossas razões.
A felicidade é de uma relatividade assombrosa.
Banana ou caviar?
Engenheiro ou feirante?
Solteiro ou casado?
Com ou sem filhos?
Rio de Janeiro ou Paris?
Novidades ou cotidiano?
Quando viajamos, felicidade é chegar em casa e dormir em nossa cama.
Quando os filhos crescem, sentimos saudades de quando eram crianças; quando crianças, sonhamos que eles cresçam.
Quando estamos trabalhando, almejamos a aposentadoria; quando aposentados, desejamos intensamente voltar a trabalhar.
Passamos a vida “em busca de’”.
De quê?
Morremos sem saber por quê.
Enquanto estou viva, para dar motivos maiores à minha vida, escrevo este livro.
O pretexto?
Plantei a árvore, tive o filho.
Na trilogia da tal felicidade, faltava ele. 

2004

foto do lançamento do livro PreTextos em setembro de 2004; Rosa Pena com Lilian Maial, minha eterna amiga e companheira.









Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 19/01/2005
Reeditado em 16/10/2008
Código do texto: T1908
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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