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OS ENGUARDACHUVADOS

                               Durante um bom tempo, e em dias de tempo bom, quis entender por que, em dias de chuva, pessoas enguardachuvadas insistem em caminhar sob as marquises e expulsam os-sem-guarda-chuva da proteção. Tente passear no centro em chuvarada. Vá desprotegido. Senhores e senhoras enguardachuvados ficarão sob as marquises e, sem a mínima piedade, te expulsarão ao aguaceiro.  Ou seja, quem já tem abrigo fica abrigado, e quem não tem proteção fica mais desprotegido.
                    Sensibilidade humana parece não ser o forte de ninguém. Publicidade na televisão - como aquela do senhor que cede o lugar no táxi para uma mãe e o filho em dia chuvoso – tentam nos fazer bonzinhos. Naturalmente não somos. Precisamos de uma forcinha para a delicadeza com os outros. A lei ajuda mandando os bancos terem caixas para idosos, criando lugares reservados nos ônibus, exigindo construções adaptadas aos diferentes. Cada um pensa em si e os outros que se danem. É natural. Sem coerção, pouco se faz.
                   Como perdi um sem número de guarda-chuvas, resolvi descartar para sempre o acessório. Tornei-me uma vítima certa da gang dos enguardachuvados. Fico esperando a calma dos pingos para alcançar a próxima marquise. Lá vem uma enorme senhora com um seu guarda-chuva. Aberto e pedindo um mundo de espaço. Penso: “a senhora está com guarda-chuva, vai me deixar sob a marquise, já que estou sem”. Bocó. Penso como um bocó.  A senhora se aproxima e, se não saio da frente, serei atropelado. Mantenho-me feliz. Essa nem chacoalhou a água do pano nas minhas costas.
                       Para a conduta urbana dos enguardachuvados já encontrei explicação histórica, antropológica e teológica: Adão e Eva, a maçã, eles pelados no paraíso, a folhinha de parreira e tudo mais. De Adão e Eva nasceram Caim e Abel. Se Caim matou Abel, somos filhos de Caim. De modos que, no fundo no fundo, todos temos aquela vontadezinha de sacanear. Pode ser uma sacanagem elefântica, como essas dos políticos que metem a mão no dinheiro público. Ou, pode ser uma sacanagem amébica como empurrar para a tormenta o coitado de um sem-guarda-chuva.
                      O final de Belíssima? Pois bem, esta é uma crônica sobre o final da novela. Sílvio de Abreu bagunçou legal o perfil das personagens. Bandido virou herói, herói virou bandido, o filho da Bia Falcão virou filha. Uma coisa não mudou e não foi surpresa pra ninguém. Bia era egoísta e nenhum gênio em trama conseguiria purificar essa malvada madrasta.  Bia foi uma representante perfeita dos enguardachuvados urbanos com todos os desdobramentos presentes e futuros.
                     Bia se deu bem. Nada estranho, né? Neste mundo competitivo, quem busca apenas suas próprias vantagens, na novela ou na vida real, não demora pra se dar bem.  Essa teoria de que - mais cedo ou mais tarde - Deus arruma a história é conversa-pra-sono-bovino. Quem não tem guarda-chuva, ou oportunidade, que se vire. Ou vá xingar Abel. Esse filhote de Adão, por querer se fazer de santinho, morreu de morte matada e deixou Caim, o assassino, crescendo e se multiplicando.
                              Grandes egoísmos um dia foram pequenos.

Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 10/07/2006
Reeditado em 10/07/2006
Código do texto: T190969
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5113 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 00:17)