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O Dono do Mundo

Acho que descobri minha verdadeira profissão. Sou escritor. Um escritor amador. De segunda à sexta, das 8 às 17:00, trabalho. É meu ganha-pão. Mas sou escritor 24 horas por dia. Levanto de madrugada, com os bocejos recheados de versos. Almoço com um pedaço de papel e uma caneta no bolso, para anotar meus pensamentos. Presto atenção nos acontecimentos do cotidiano, pois serão a base para a minha próxima crônica.

Na minha profissão, posso viajar o mundo, sem tê-lo conhecido. Posso criticar coisas, pessoas e a mim mesmo. Posso falar de música, de futebol, de amores que tive e que não tive, correspondidos ou não. Posso convidar o meu amor inexistente a morar comigo no interior. Posso até negar a existência do próprio amor. Posso inventar palavras e expressões. Posso revelar que tenho medo do escuro. Posso fingir que sou outra pessoa....e revelar sua identidade no instante seguinte. Posso dizer que não gosto de coisas modernas. Posso mentir. Posso sonhar. Posso poetar, mesmo sem rimar. Posso escrever algo que não acabou, e posso me atirar ao fundo do mar. Posso dizer que os lanches do Mc Donalds são maiores nas propagandas. Posso dizer que o Rock ‘n Roll está sendo banalizado. Posso criticar a televisão. Os políticos. Posso falar de economia. Posso escrever uma carta ao ex-ministro da educação, mesmo tendo plena ciência de que ele não irá lê-la. Posso criticar dietas de todos os gêneros, e os padrões de beleza pré-estabelecidos. Posso criticar os mendigos, e pedir desculpas logo em seguida. Mas principalmente, posso conhecer o trabalho de outras pessoas, e com isso, enriquecer o meu, sem ganhar nenhum tostão. Tenho munição, um arsenal de sobra, para soterrar o mundo de pensamentos e amor.

Escrever me dá asas. Elimina as fronteiras. Quebra as algemas. Estilhaça a mesmice. Pára o dogma, para a digna. Me instiga a investigar o que há entre as linhas. Me permite fazer permuta-dilhos. Me faz chegar às estrelas. Estrelas essas que alguns conseguem perceber seu brilho, outros não. Mas não me importo. O importante é que brilhe, nem que seja apenas para mim.

Passei a me importar menos com relação ao que as pessoas pensam de mim. Afinal, diferentemente de outras profissões que tive, essa eu faço para mim, faço porque gosto. Se eu ganhar dinheiro com ela ótimo, mas se não ganhar, tudo bem. A madre Teresa não ficou rica fazendo caridade, nem o Che Guevara com seus ideais. E algumas pessoas ficam ricas vendendo armas e drogas. Guardada as devidas proporções, o escrevedor aqui não brinca com as letras por dinheiro.

Pode ser que ninguém leia. Pode ser que muitos leiam. Pode ser que alguém comente. Pode ser que alguém critique. Pode ser que alguém diga: “que porcaria, este texto me dá sono”. Pode ser que as pessoas entendam o que estou escrevendo. Pode ser que eu permaneça o eterno incompreendido. Pode ser que eu rasgue este texto. Pode ser que eu publique. O importante é que estou escrevendo. O importante é que estou vivendo.

Passei a identificar minhas qualidades. Mas também meus defeitos, como, por exemplo, não saber dar títulos aos meus textos (acho que neste acertei); ou então, utilizar muitos parênteses (risadas); não sei como enquadrar meus textos dentre as categorias, pois nunca sei se estou escrevendo uma poesia, uma crônica, um pensamento, um artigo, um acróstico ou um hai-kai; percebi que cometo muitos erros de português; pior ainda, não os corrijo! Também não sei organizar meus textos, pois sempre escrevo um rascunho para organizá-lo depois, mas é o próprio rascunho, do jeito que foi concebido, que é publicado. Agora percebo que se os meus defeitos se resumissem apenas à escrita, seria bom. Na verdade, não seria nada bom.

Já tive um texto publicado gratuitamente em um jornal eletrônico, minha maior façanha profissional. Já recebi críticas e elogios. Já vi pessoas ficarem com os olhos lacrimejados, depois de ler uma poesia minha, o que fez os meus olhos automaticamente fazer o mesmo. Já homenageei pessoas, e também já fui homenageado. Tenho até minha fã número 1. Já fiquei envergonhado pelo que escrevi. Já me escondi atrás do que escrevi. Já me senti bem com o que escrevi, e já fiquei decepcionado. Já fui amado e odiado, devido a minhas palavras. Já fui chamado de ranzinza, de ácido e de mágico do amor. Já disseram que peguei pesado. Também vi pessoas me reconhecerem somente através das palavras. Já recebi R$ 40,00 por um texto que escrevi, outra façanha.

Sou uma pessoa comum. Não sou ninguém importante. Não sou famoso. Mas quando escrevo, me sinto o dono do mundo, mesmo sem ter sua escritura. Neste momento, sou o dono do mundo. Um dono do mundo com R$ 40,00.


ilsanches@gmail.com
Ivan Sanches
Enviado por Ivan Sanches em 10/07/2006
Código do texto: T191378

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Sobre o autor
Ivan Sanches
Santo André - São Paulo - Brasil, 34 anos
141 textos (12236 leituras)
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Ivan Sanches