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Saudosismo Apaixonado


Parece que perdemos o jeito. Não se fazem romances como antigamente. Sabe, aquelas paixões verdadeiras, das boas, daquelas que não precisamos dizer, pois todos percebem, sumiram no ostracismo anti-romântico das nossas relações.

Aquela vontade de ver a pessoa amada, porque um filme ou o trecho de um livro nos fez lembrar, de algo que foi vivido junto, ou simplesmente lembrou aquela companhia agradável que nos faz sempre feliz quando chega, simplesmente foi substituído por relacionamentos estressantes, possessivos e chatos. Até parece que estamos falando de velhos casais, extenuados de uma vida a dois, entediados de uma rotina de anos a fio ao lado da pessoa, que, pretensamente pensava-se ser amada, mas não era. Infelizmente estamos a falar de casais de adolescentes, jovens que com pouco mais de dois ou três meses de namoro, tomam posse um do outro e esquecem de viver a paixão.

Hoje em dia, namorar significa esquecer os amigos, deixar de sair sozinho de vez em quando, não para novas aventuras, mas para lembrarmos que não existe vida a dois se não houver individualidade. É o mesmo conceito de que não poderemos amar alguém se não amarmos a nós mesmos.

Do mesmo jeito que era moda, no século XVIII, escrever poemas que muitas vezes, sequer eram entregues à amada, hoje em dia, o normal é ter um relacionamento obsessivo chato e sem amigos, sem vida própria, e sem paixão. Isso mesmo, sem paixão. Desafio a qualquer um a me convencer de que é normal ligar dez vezes por dia pro celular do namorado (ou namorada), não por saudades, mas para saber onde está, o que está fazendo e inventar até mesmo um certo desconforto pra fazer charme e manter a desconfiança como base de manutenção da relação.

Para quem pense que é amargura ou recalque, digo apenas que não se trata de um relato autobiográfico e sim da observação de relacionamentos de amigos, conhecidos e parentes, e para minha tristeza, todos mais jovens que eu.

Toda essa questão me veio à mente a alguns dias, não só pela observação da vida dos outros, mas pela observação da minha própria. Descobri que os valores estão invertidos. Adolescentes vivendo vida de adultos e nós, adultos, vivendo vida de adolescentes, mas só com a parte boa é claro. O que chamo de só a parte boa? Não aborrecemos parentes com dilemas e rebeldias, trabalhamos e nos relacionamos bem com nossas amizades, sem brigas na rua, sem dias sem tomar banho ou sem querer ir à escola, faculdade ou o trabalho. Estamos descobrindo o quanto é bom reunir verdadeiros amigos para assistir desenho animado em uma tarde chuvosa de sábado, comendo pipoca e jogando Banco Imobiliário. Vivemos muito mais preocupados em achar nossa felicidade do que nos preocupar com a dos outros. Isso pelo menos é a realidade das minhas relações.

O melhor de tudo, voltando à questão principal, é que estamos nos permitindo viver paixões da maneira mais intensa e gostosa. Eu particularmente pude redescobrir o prazer de uma paquera inocente e calma. Sem pressas de "ficar", procurando conhecer melhor a outra pessoa, percebendo suas qualidades e defeitos, preferências, sonhos, medos, enfim, uma série de coisas fundamentais a uma boa relação para que se não for duradoura, pelo menos não nos arrase.

Estar apaixonado sem saber se vai haver correspondência é mais ou menos como viver. Sabemos que vamos morrer um dia, mas não saber quando é o que faz de nós humanos. Assim é a paixão, senti-la sem saber se teremos retorno é o que nos faz românticos e nos rejuvenesce, e nos lembra o quanto é bom poder viver.

Braulio Filho
Enviado por Braulio Filho em 10/07/2006
Código do texto: T191443
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Sobre o autor
Braulio Filho
Campina Grande - Paraíba - Brasil, 38 anos
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