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A LEGÍTIMA HORA DO "FODA-SE"

TALVEZ NÃO SEJA UMA CRÔNICA, MAS UM CONTO. NA DÚVIDA FICA AQUI MESMO. É ALGO QUE ENCONTREI NOS GUARDADOS. ESCRITO EM 2000.

Teu rosto inalterado, o olhar duro, frio, um riso pré-calculado,
palavras poucas, colhidas, a dedo, com muita cautela: já vi isto vezes sem par, sem que até  hoje, por razões mil ou por nenhuma razão, o meu amor se alterasse em um milímetro que fosse.  Até hoje.
Em todas as vezes que meu olhar caiu nesta face dura, estranha e que chega a me dar medo, fiz a memória voar e buscar em seus arquivos as muitas loucuras, a doideira de atravessar quilômetros às escondidas e com o mundo inteiro olhando feio e me apontando o dedo, para encontrar um homem de quem mal sabia o primeiro nome. Bastava-me isso. Eu sabia tudo que era preciso para amar. Conheci teus olhos de sol.
 A memória fez sempre bem seu trabalho: buscou os momentos à noite, as conversas em voz baixa, junto ao ouvido, as dificuldades superadas. Toda uma vida vasculhada em busca das planícies para não mergulhar no abismo profundo que eu enxergo agora no olhar deste de quem conheço nome completo, CPF, endereço, mãe, pai e que, no entanto, este sim, desconhecido. As lembranças foram anestésicos que calaram a dor revoltada que teimava em querer se instalar. A dor que eu insistia em fingir que não doía.
Agora, como num estalo, pego-me a te olhar e tudo que consigo fazer é calar. Apenas observo este homem tão estranho em que há tanto tempo você se transformou. Eu vejo isto há tanto tempo, tantos anos e não me entendo. Chego a pensar que me engano. Busco o sol nos olhos. O homem entre a sombra e a alma. Aquele do Neruda, do texto que há tanto te mandei. Nada sobrou. O que há é alguém que chama meus pedidos de ajuda de drama mexicano.
Volto a olhar com mais atenção. Mas é o estranho de novo. Não há nada em seus olhos. Nem um mínimo raio do sol que um dia vi. E começo a imaginar que o estranho sempre morara ali. No mesmo lugar. E que então, sou eu a que está onde não deveria estar.
Sou teimosa. Olho em volta o que foi construído e busco nos objetos algum sinal de sua presença ou atenção. Não encontro nada. Aqui só tem eu mesma. E cada vez mais só. Solidão a dois, boa expressão esta. Quem falou disso, entendia do assunto.
Olhar para trás agora, depois de conferir claramente que há nestes olhos apenas um abismo frio só ajuda a piorar as coisas. Ao invés das imagens boas que me sustentaram enquanto busquei me enganar, só vejo que aquele onde enxerguei olhos de sol foi uma criação de Cinderela incrédula. Não há príncipe, o cavalo branco quebrou a pata há muito tempo e o castelo está em chamas. Salve-se quem puder. Ou quem sabe, foda-se quem quiser.
Não tem jeito: da realidade não escapo, o príncipe virou sapo.
Tento te sacudir, ainda mantendo comigo pequeno fio de esperança. Ilusão de quem acha que pode acordar tua criança, que pode acender o sol novamente. Não mesmo. Você, há muito, pra usar aquelas expressões em inglês que tanto odeia, “took my love for granted”...Quer dizer, já tá tudo garantido. Fazer força pra quê?
A boa educação ensina a hora de sair da festa. Chegou a minha hora. Desisto. A vida não espera, segue seu curso independente de nós.
Não adianta virar fera, tentar amarrar os nós, quebrar os vidros.
 Ficou claro que há muito já não existe um “nós”. Tenho as mãos atadas por cordas que ganhei de você; os joelhos feridos de estar aos teus pés quando devia ter estado a teu lado; as pernas cansadas de subir tuas escadas para ser ouvida. Só sei que tenho que seguir.
Com ou sem você. É aquela hora legítima do “foda-se”.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 23/05/2005
Código do texto: T19150

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai