Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

FILE NOT FOUND ( ou tem vírus no meu hd)

Encontro-a à mesa do café.  É uma mulher estranha. Estranha, não. A palavra não é exata. Diferente. Intrigante. Algo nela me dá vontade de sabê-la um tanto mais. Algo que mistura mistério com empatia. Chego a achá-la simpática.
        Café na xícara esfriando. Penso que talvez goste do café mais frio. Coisa horrível isso. Café frio.  Livro na mão. Folheando apenas. Os olhos apenas passeiam pelas letras que balançam na sua frente. Seu olhar, entre concentrado e distraído, e um eventual sorriso atravessam, cortam as páginas.
        Mais um café: “Por favor, desta vez, quente.” O garçom sorri, lembrando que a última xícara deixara fumegando sobre a mesa.
        Num rasgo de tempo muito rápido, ela percebe minha presença. Certamente notara que eu a observara. “Você é péssima em disfarçar, moça”. Imagino que ela pensou o mesmo que eu.
        Sorri. Olha. Sem dizer palavra, convida-me a sentar. Nem sei se é convite. Mais parece uma sentença, uma convocação. Aceito.
        Ficamos algum tempo assim: sem uma palavra. Mudas. Mudas não é bem a palavra. Seus olhos falam. Muito. Falam o tempo todo. Sobre tudo.
        De repente ela dispara:
-Você sonha?
        Pronto. Pegou-me de susto. Não me deu tempo para elaborações. À queima-roupa não estou acostumada. Esboço um sorriso mudo.
        - Acho que sim, hesito...Todo mundo sonha.
        Mais um gole de café.
- Esfriou de novo...
E um sorriso meio irônico vem junto.
         -Tem certeza? Não sei, não... Muita gente, mas não todo mundo... A gente pensa que sonha, até ver que está simplesmente acompanhando os sonhos da multidão. Aqueles que fomos aprendendo, que fomos sendo treinados pra sonhar. Alguns até esquecem de viver. O mais engraçado é que pensam que seus sonhos são únicos, originais.
Dá um sorriso meio irônico, debochado até. Pega a xícara, dá voltinhas no café dentro dela, enquanto me olha como se esperasse alguma reação a suas palavras. De novo, fiquei sem nada pra dizer. Pane no meu sistema. O comando de localizar não encontra nada no hd. Não com aquela palavra-chave.
         Nunca me passara pela cabeça esta idéia. “A gente não sonha. Vai pensando assim pra aprender. Aprender a sonhar o que todo mundo sonha. Aprender a fazer parte da multidão, partilhando assim, meio sem-vergonha, sonhos que nem são nossos. Sonhar com grandes casas, grandes amores, uma vida repleta de amigos...”
         Fico assim, embutida nos pensamentos desencadeados pelas frases daquela estranha que divide comigo a mesa do café como se fosse uma velha conhecida.
        Ela volta a falar, quase sem prestar atenção a minha presença.
        - Nossas estradas são todas iguais. Todas com as mesmas pedras, mesmos rumos. Aqui e ali alguma coisa diferente. Você tem razão.
Como sabia que eu tinha razão? Eu não tinha dito nada. Apenas pensara. Mas de alguma forma, ela ouvira os meus pensamentos. Ou não? “Meu Deus, to maluquinha... agora acho que a mulher lê pensamentos...” Não sabia mais de quem era aquela idéia.
- Mas é por causa dos olhos, entende? continua ela, acendendo um cigarro e olhando a fumaça calmamente. Resolvo me calar e esperar. “Não demora”, aposto eu.  Outra tragada e ela segue:
- Tem quem olhe pra trás. Outro tanto olha pra frente.
E olha em volta, como apontando com os olhos as outras pessoas a nossa volta.
- Quer um palpite?
- ....
- É. Porque conselho não dou.
Agora fala quase como se nem me visse. E continua, sem esperar alguma resposta da minha parte.
- Não olhe pra lado nenhum. Nem pra frente, nem pra trás.
Olhe pra dentro. E não sonhe. Seja.
Foi-se. Pra dentro. Desapareceu na nuvem de vapor. A xícara ainda fumegava. Arrumei as folhas sobre a mesa e desliguei o computador. Melhor desfragmentar o hd. Acho que tem algum vírus bagunçando meus arquivos.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 23/05/2005
Código do texto: T19152

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154013 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 22:10)
Débora Denadai