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O BARCO

                                Meu fascínio pelo mar ancorou um barco em minha sala. O barco tem o corpo de cedro e se orgulha de suas alvas velas de lona. Neste planeta - onde todos os mares são conhecidos - parece ter pouca utilidade um barco, me dizem. Mas um barco sempre há de ter um cais em minha casa para me encorajar no enfrentamento de novos mares, no desvelar de mundos. Ainda haverá ilhas com índios antropófagos guardando tesouros? Ainda haverá matas com temíveis feras? Não sei. Meu barco, sempre de velas içadas, está pronto para levantar âncoras. Como minhas viagens são internas,  basta um desejo meu e o mar serena.
                       Léo tem seis anos. Moramos no mesmo edifício. Desde que começou a engatinhar encandeou-se com o barco. Em suas visitas, toma o veleiro no canto da sala e o coloca sobre o tapete azul. No pequeno gesto de Léo, o tapete realiza seu sonho de ser oceano.
 No início, tive medo. Ele poderia quebrar o barco; talvez, ferir-se. Soprava para fazer o vento nas velas, movia as mãos e os braços para imitar as ondas e os abria ao máximo para me mostrar um oceano bem gordo. Era seu jeito de me dizer “quero brincar com o barco no mar”. Como dizer “não” àqueles olhos tão cheios de encanto?
                        Embora com medo, um dia aceitei marujar. Léo, eu e o barco sobre o tapete-mar azul. Uma tempestade, tubarões e monstros. Léo quis apagar a lâmpada. Uma réstia do abajur era o único farol na noite. Algo grave acontecia. Eu tentava entender. Difícil. Tentei contar-lhe que rumávamos para uma terra de índios antropófagos, mas não sabia como; precisava falar da ilha com florestas e feras, mas não soube dizer “árvore” e nem “onça”.
                                  Para Léo a tempestade continuava forte, os tubarões rondavam o barco, monstros roncavam entre espumas. Escuridão. Tempestade era Léo soprando forte e movendo o barco. Tubarão era suas mãos e dedos fazendo dentes.  Monstro era uma careta bem feia. Eu observava sem poder participar. Sabendo dos perigos, olhei para o menino mostrando apavoramento. Então, Léo me deu um abraço para dizer “estamos juntos, não tenhas medo”.
                                 Talvez ele nem percebesse, meu medo não era dos perigos imaginários de seu mar. Eu estava com medo de minha ilha com índios antropófagos guardando tesouros e onças dentuças rugindo na mata. Entre mim e ele havia um grande mar. Meu medo era por não saber navegar até o mundo de Léo.
                     Com o tempo, Léo me ensinou os segredos do mar e do barco. E aprendi a contar-lhe sobre os índios antropófagos, sobre a onça e sobre a floresta. Léo me explica que os índios são amigos da gente, que a onça - como em Max e os Felinos do Scliar - poderá nos salvar dos tubarões e dos monstros, que a floresta está na florada das bromélias.
                                 Léo e eu já nos entendemos melhor. Quando me vê, toca o lado esquerdo do peito e simula um abraço. Se ganha um brinquedo ou uma roupa nova, vem me mostrar com a alegria nos olhos. Léo, deficiente auditivo, ao retirar meu barco do canto da sala, com ele retirou meu medo de terras desconhecidas. Léo e eu, se quisermos, já estamos em tempos de dispensar o barco. Florescemos uma ponte entre nossos mundos. Uma das muitas esperando construção.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 13/07/2006
Reeditado em 13/07/2006
Código do texto: T193062
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5112 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 20:43)