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Loja de prateleiras

Nunca, ninguém – repito - nunca ninguém me viu chorando pelos cantos, amolecido pela circunstância. Faça o meu favor! Prefiro o ócio! Ao contrário de uns por ali. Bom, vamos aos fatos, odeio gente, e a falta delas também. Confesso que nunca esqueci dos tropeços de certas pessoas, - e nem de você, humano infame que me lê! Começo grosseiro, hediondo, taciturno, pois iniciarei o improviso de palavras desta hora. Estas tentam fugir, mas eu as puxo; Vá lá, perder uma história destas? Não posso, e sendo odioso, as coisas facilitam para mim.
Lá pelo instante máximo: tarde de Sol, clima ameno, céu azul. Junto a essa amostra perfeita, o que penso; tenho uma garota na cabeça, confesso (que não é a de agora). Visto, após minha perda nas apostas, um cérebro humilde. Penso em planos miúdos, prateleiras, porque não? Colocaria, assim, meu habitual exposto num quarto: livros, discos, filmes, ótimo. Hábito é o fim medicinal de uma droga chamada rotina.
Acontece que nesta ocasião, sedento por motivação, ouriçado pelo trabalho que não age bem em mim (estou de saco cheio, imagine), penso em ouriçar meu tino para o consumo. Fiz assim: fui até a loja grande – vende de tudo, tem que ver -, assumi o carrinho de supermercado e adentrei-me. Lá pelas tantas, seis horas no relógio, estava lá eu, um boçal comigo mesmo. Explico-lhe, com muita satisfação até, o porquê desta auto-ofensa lá na frente.
Comando o carrinho com o rigor de um velho. Lembro da infância, de quando acompanhava meus pais nas compras. Antes era mais vigor do que rigor, isso é certo. O carrinho do mês sempre tinha minhas bolachas, um arroz - sempre – e o café. O resto, bem, variava de acordo com o humor e o dinheiro, escasso. Mas era bom, digo até mais, estimulante aquele cursinho capitalista. Talvez, sem este estimulo lá no passado, não estaria jovem rapaz, Karl Marx ao contrário, dentro desta grande loja, comandando um magrelo e vazio carrinho de supermercado. Eram seis da tarde, sublinho isto, pois pense comigo. Na TV, nos sete canais abertos que consigo sintonizar em casa, nada; nas salas de cinema; nos amigos; nas aulas da faculdade, nos professores que não gritavam meu nome na chamada; então, não tinha mesmo o que fazer. Era muito prematuro também aceitar a morte, e minha camisa social está molhada de suor, faz Sol, (falo no presente pois imagino tudo como num delírio, tudo aconteceu “hace tiempo!” ).
Como saber que não estava num necrotério? Difícil. Sinto estar em um grande vácuo. A cada passagem por entre  estantes, grandes aglomerados de material para construção – tudo aquilo cujo minhas posses e minhas ausências sintomáticas de planos e  bem me queres não permitiam -, dizem a mim “saia daqui homem!”. Na trilha, música de fundo, uma Alpha Fm que me fazia triste por ora - arquitetava a ação do choro ou coisa que o valha. Mas não. Fui assim: para lá e para cá, sem muito interesse naqueles artigos. Os velhinhos, agora vejo aonde fui me meter -, eu estava num baita programa destinado à terceira idade do meu bairro E eu, ora, um jovem de 19 quilos de alcatra... O sentimento abjeto me desce: agora e de uma vez.
Esfrego os olhos como se visse uma miragem. Veja homem, aonde você foi se meter! Não creio, não creio, mas estou ainda procurando prateleiras. E quanto mais ando, quanto mais seções passam, o carrinho range um som de masmorra. Estou perto da lastima de se sentir assim, um alvo móvel da morte. Parênteses: aquela agora, menina tão bela e erudita, tão bem lá longe; quem diria, hoje mudou tudo. Que coisa mais gozada. Mas voltando a história, não sei se choro, estou mais para o grito que para o urro. E não gritarei. Não sei, mas visto de longe, assim, num close final de filme noir, um aspecto velho não? Sinto-me um asmático. Envergo a postura como quem carrega um peso. Não há, claro, nada visível acima de minha nuca. Seja simbólico – eu mesmo me convenço disto -, tudo bem. Isto é certo: carrego a tonelada dos dias, dos fracassos e de um bocado de injúrias. Quantas léguas andei, nem sei. Vem um – sempre vêm – e me diz. Tu sofres do mal da inoperância rapaz –, não digo nada. Aquilo entra, palavra, insulto, que seja; passo a ser um conduzido por esta reflexão vil. Se tudo dá certo hoje - muita coisa mudou, repito -, penso em agradecer primeiramente aos meus pés e não aos conselhos. Deixaram-me eretos aos fatos. Imagine só, um orangotango escritor de resenhas, o que seria? Hoje, tenho orgulho de fora para dentro; sou jornalista de meios extremos; um calhorda de próprio rascunho.
Nesta ocasião tive a reflexão no chiado das rodas de um carrinho de supermercado. Elas sempre fazem barulho, sabia disto? O desagradável só vem à tona quando não há gente murmurando ao seu lado num supermercado cheio, daqueles de dia 05, sabes?  Ouvi atento o som neste dia e me vi sozinho demais. Pensei certo. Instalar uma vivência sozinha funciona, sim, não há nada inviável nisso. Mas sabe, pensei bem; se estivesse com alguém no meu certame, ali, ao meu lado nesta hora, teria tido uma tarde feliz. As prateleiras estariam penduradas em minha parede, carregando histórias, músicas e cenas – como queria afinal de contas.  E lembro, era fim de março – não sei bem ao certo, mas era. Fui embora fugido de mim mesmo. Não era para ter sido um rasgo do destino assim tão grande. Rasguei meu caminho em dois e optei pela via nova. E foi bom, pois, em outro dia, num daqueles muitos sem ter o que comemorar, aquele homem, que era eu, cheio de receio, enviou um flerte sem querer. E ela, sem saber, mudou a história do homem. O caminho que transformei em dois, em pouco tempo viu-se rompido em quatro passagens diferentes. Escolhi uma delas e aqui estou.
Não ouço mais o trilhar das rodas do carrinho de supermercado. Prometi a mim mesmo não entrar mais na grande loja. Acho que é blefe, (logo, logo estarei lá).  Aquele plano excêntrico de comprar prateleiras ainda resiste. Tenho mais coisas: registros, retratos para serem colocados à exibição em meu quarto. Prateleira, essa tábua infame!. Me sinto bem; escrevo na madrugada perto de meus 21 e tenho um alguém ao meu lado falando pelos cotovelos, evitando, inclusive, o ranger do carrinho no chão da loja. Mil léguas depois e olha só quem pregou peças. Memória amiga, nada mais de efemérides por hoje.
Fecho o livro.
Michell Niero
Enviado por Michell Niero em 13/07/2006
Código do texto: T193501
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Sobre o autor
Michell Niero
Osasco - São Paulo - Brasil, 31 anos
37 textos (3065 leituras)
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Michell Niero